sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Dia Mundial dos Introvertidos

No dia 2 de janeiro de 2011 foi comemorado, pela primeira vez, o Dia Mundial dos Introvertidos. Uma iniciativa bacana e que vale a pena passar para a frente. 

Mesmo que na agenda política, social e ecológica possam existir questões muito mais urgentes, é sempre bom aproveitar toda e qualquer possibilidade para sairmos da casinha de nossas cabeças e tentar ver o mundo pelos olhos do outro - inclusive quando esse outro é uma pessoa introvertida que está mais ou menos tragicamente perdida em um mundo feito para extrovertidos. 

Introversão é diferente de timidez (não obstante a reação intransigente das pessoas que cercam o introvertido possam colaborar para desenvolver um quadro de timidez ou mesmo outros problemas mais sérios, como a depressão). De acordo com o dicionário, e referenciando Carl Jung, introversão é "orientação predominante da energia psíquica para o interior do próprio sujeito". 

Ou, traduzindo em miúdos, alguém que fica ruminando as ideias, observando o mundo a sua volta e cultivando o silêncio, mas faz isso com uma intensidade um pouco acima da média.

Mas e por que é que é importante um dia dos introvertidos? Qual a validade de uma data para pensar na introversão? Para aqueles que nasceram do lado de lá desse rio chamado 'vida social' (ah, seus extrovertidos faladores e socializadores!), aqui ficam algumas razões.  

Sim, o mundo é feito (também) por introvertidos!


Porque ser quieto e apreciar a solitude (que é a solidão gostosa, produtiva e voluntária) não deve transformar ninguém em esquisitão ou doente. 

Porque preferir a tranquilidade e o silêncio ao invés da muvuca e do falatório não deve significar que esse alguém é antissocial, antipático, ou que detesta as pessoas - geralmente nós, introvertidos, como qualquer outra pessoa, só detestamos aquelas pessoas que já são detestáveis.

Porque ter dificuldades e resistências a festas, confraternizações e outras situações sociais em que reina a conversa mole e fiada não deve ser motivo para esse alguém ter de ouvir 'por que você é tão quieto?', 'você deveria falar mais!', 'não seja tão sério!', 'se solte!', ou, o pior de todos, 'saia do seu casco!' - não temos casco, mas se tivéssemos consideraríamos seriamente permanecer dentro dele se isto significasse sermos poupados deste tipo de comentário-cobrança.

E, aliás, porque não gostar de, ou não conseguir ter, conversas moles (especialmente com quem não conhecemos direito) não significa não gostar de, ou não conseguir, conversar.  

Porque assim como tem pessoas que necessitam absurdamente estar no meio de outras pessoas e fazendo coisas com outras pessoas (juro que não entendo como as pessoas sacrificam de boa vontade seus finais de semana em eventos coletivos e barulhentos, mas ok, aceito isso), há quem precise urgentemente, de tempo em tempo, meter as caras num livro, filme, jogos ou qualquer outra coisa que possa ser feita sozinho (e se você não entende isso, não custa aceitar, certo?).

E finalmente, porque pessoas introvertidas não são menos por serem introvertidas - que o diga Einstein, Darwin, Nietzsche, Bill Gates e tantos outros nomes de nossa História, inclusive atores e políticos.

Hoje, Dia Mundial dos Introvertidos, caso não seja um deles, faça apenas um pequeno exercício: antes de rotular de arrogância, grosseria ou antipatia o silêncio de alguém, pense que esse alguém pode ser um introvertido curtindo um maluco e intenso mundo interior de ideias e observações. E dica bônus: se você tiver paciência e empatia, pode até ser convidado a conhecer, num relato de primeira mão, esse maluco e intenso mundo interior. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Médicos e Gnomos (ou 'Geneticmente Psicossomático)


         De casa para a padaria, da padaria para o trabalho, do trabalho para o restaurante e de volta para o trabalho, às vezes do trabalho pro happy hour, mas na maioria dos dias do trabalho pra casa. Sempre de carro, é claro. Essa foi a rotina de Edmilson durante alguns anos antes de ele perceber que havia perdido a capacidade de andar.  Quando  uma reunião emergencial de domingo de manhã havia sido cancelada e ele resolveu dar uma volta no parque que ficava ao lado do mega complexo  predial da sua empresa, tentou andar mas não conseguiu. Não sentia dor e não viu nada de errado com as pernas, era como se fosse um daqueles sonhos em que tentamos correr mas não conseguimos.

              A partir daí (e não me pergunte como foi que ele conseguiu sair do parque) sua vida entrou em dias tenebrosos, foi um correria de médicos fazendo exames e não encontrando nada.  Obviamente indicavam outros especialistas que sugeriam tratamentos experimentais caríssimos com remédios de laboratórios famosos sem garantir melhora.  Edmilson já havia perdido a esperança, mas sendo um homem metódico resolveu se consultar com o último médico da lista do plano de saúde (era o mais barato).

        Chegou a um consultório em um prédio marrom com um ar opressor num canto afastado da cidade. Foi recepcionado pela secretária que aparentemente estava lá desde os anos 70 sem voltar para casa. Enquanto aguardava leu a revista seleções mais recente que encontrou, 1986. Seu estado de espírito estava com uma impressão tão ruim do lugar que quando foi chamado pensou em desistir da consulta, mas quando lembrou do esforço que teve para chegar lá pela escada achou uma nova opinião não faria mal.

             O ‘doutor’ era um homem pequeno, com uma  aparência diferente que dificultava supor qual era sua idade, tinha olhos atentos com um quê de malícia que o conferiam um ar de sagacidade. Ele encarou longamente os olhos de Edmilson enquanto ele se aproximava da mesa.

         A consulta estava ocorrendo normalmente, com Edmilson apresentando sua pasta de exames e o médico fazendo-lhe as perguntas de praxe. Encucado com a magnitude do problema o doutor coçou a rala barba enquanto suspirava analisando uma série de exames inconclusivos, então falou:

- Ineficaz por ineficaz sugiro que façamos um mapa astral, também tenho algumas perguntas sobre seus pais, pode deitar neste divã por favor – disse apontando o divã verde acinzentado e empoeirado. Edmilson assustou-se com o sincretismo investigativo, mas o doutor foi tão incisivo e obstinado que ele atendeu prontamente.

Após cerca de três horas de conversa e muito choro das duas partes, os dois sentiam-se como velhos amigos, o médico pediu permissão para ser franco e disse-lhe:

- Sinceramente querido, seu problema é grave, mas parece ser de uma origem “geneticamente psicossomática” – ilustrou as aspas com os dedos, - eu conheço uma “pessoa” – novamente, - que pode te ajudar, mas tenho que te avisar que existe muito preconceito com o tipo de tratamento que ele oferece.
- A esta altura eu não me importo – respondeu Edmilson.

- Pois bem, ele é um gnomo, aqui esta o cartão com o telefone, endereço e a batida secreta da porta.    – O doutor falou de forma calma e pausada, olhando por cima dos óculos para que Edmilson não duvidasse. De fato sua resposta sequer deixou transparecer as dúvidas que ele sentia:

- Mas o plano de saúde cobre isso? – Perguntou Edmilson pegando o cartão colorido.

         - Certamente, está aqui no escopo do Plano, ao lado de homeopatia, psicologia e acupuntura.

  No dia seguinte, Edmilson foi ao endereço indicado e encontrou uma grande arvore, embaixo de um grande cogumelo, com uma porta. Bateu do modo solicitado na porta e foi prontamente atendido por um simpático gnomo. Beliscou-se e não restando dúvida de que estava acordado aceitou o convite de entrar.

   Uma vez lá dentro a consulta ocorreu de forma normal, as mesmas perguntas e a analise dos mesmo exames, porém quando ele acabou de contar o causo o gnomo disse:

     - Não se preocupe, tenho a solução, – falou dando baforadas no longo charuto e abrindo um sorriso – e vou faze-la agora mesmo.

       Quando Edmilson viu o chá de cogumelos sendo preparado, objetou:

              - Peraí, cogumelo também não!

              - É isso ou o Templo De Salomezão.

              - Ok, charlatanismo também não né – Respondeu Edmilson rindo com o gnomo.

             - Enquanto tomavam o chá e passavam a tarde juntos, Edmilson percebeu que não poder andar já não era mais problema, uma vez que agora ele voava.