segunda-feira, 15 de junho de 2015
A vida e o melão
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
O Dia Mundial dos Introvertidos
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| Sim, o mundo é feito (também) por introvertidos! |
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Substancialmente

(a leitura em ordem das notas, marcadas pelos asteriscos no texto, é fundamental para a compreensão do mesmo)
Claudio acordou cedo e dirigiu-se instantaneamente ao banheiro. Coçou sua barba que estava por fazer, alias ela sempre estava por fazer e sempre coçava. Ele deu o que gostava de chamar de ''uma cagada substancial'' aquela em que o obreiro* consegue por para fora tudo o que precisa, e melhor, não deixa muitos resquícios, o que torna a limpeza rápida e agradável (ou melhor, o mais perto de agradável que esta tarefa pode ser). Enquanto lavava as mãos ficou se encarando por um tempo no espelho, estava meio fora de forma com a barriga saliente, de samba-canção e uma camiseta cinza e desbotada, pensando na mesma merda de sempre (já que estamos falando disso): "Para onde estou levando minha vida? O que aconteceu com meus sonhos? por que eu não tenho coragem de sair desse emprego medíocre? ah é o emprego..." Estava um pouco atrasado, tinha tempo ou de tomar banho ou de tomar café, não os dois. Priorizou o café** que consistia em café em pão com ovo, seguido de mais café e bolachas.
Do outro lado da cidade Claudia começou seu dia de forma diferente. Acordou muito mais cedo que seu pseudo-homonimo-macho. Foi tomar banho, ela trajava um pijama ajeitadinho, poderíamos inclusive defini-lo como sexy. Ok, era um pijama sexy***. Enquanto tomava banho considerou a temperatura da água, sua disposição naquela manha, o cheiro do sabonete, do shampoo, do condicionador, do creme pré-banho, do creme de banho, do creme pós-banho e todos os acessórios adicionais cujos nomes desconheço e pensou "que banho agradabilíssimo!" Alias, teria pensado caso soubesse usar corretamente o aumentativo de agradável, o que não era o caso, na verdade ela pensou algo do tipo "que banho show!". Sendo uma pessoa extremamente vaidosa como era demorou algum tempo no ritual do banho, fazendo todas as feitiçarias que as mulheres costumam fazer nesse processo, e isso que não era sequer o banho de sábado, estávamos em uma quarta-feira comum. Posteriormente abriu sua necessaire, que do ponto de vista masculino continha tudo o que não é necessário (mas ok, tomemos o ponto de vista de um narrador neutro - como vocês percebem por ter chamado a garota de sexy no começo do parágrafo-****) e tomando um instrumento que não consegui identificar, mas que certamente era da família das pinças, passou a retirar pelos***** de seu corpo (ou rosto) até ficar perfeitamente simétrica, cada pelo tinha seu pelo´ (pelo linha).
Claudia tomou seu café, alias refeição matinal porque não tomava café, pão integral com queijo do tipo cottage light, uma fruta ressecada e um iogurte natural sem gosto. Sentiu-se very healthy******. Maquiou-se (não entrarei nos detalhes para não desperdiçar outro parágrafo da paciência do leitor) e foi ao trabalho.
Não sei se mencionei que Claudio e Claudia trabalhavam no mesmo lugar, uma repartição publica grande. Foram apresentados certa vez no passado e conheciam-se de dar oi e tchau.
A manhã estava agitada para uma quarta-feira. Não o suficiente para estragar o cafezinho que todo funcionário publico toma no horário do expediente para começar o dia. Nossos dois protagonistas se cruzaram no corredor enquanto iam resolver empecilhos burocráticos na papelada em que trabalhavam, trocaram um 'bom dia' e um sorrisinho. Claudia achava que o sorriso de Claudio, aqueles de canto de boca, e seu jeito 'descolado' ou 'descuidado' o conferiam um certo charme. E Claudio, como todos os homens da repartição, achava Claudia gostosa. Mas além disso achava ela uma pessoa intrigante, todo aquele cuidado com a beleza devia esconder uma pessoa de verdade******* por quem, por alguma razão, Claudio se afeiçoava. Por hora é só, cada um foi trabalhar.
Mais tarde, aquela tarde, Claudio fez uma cagada substancial não-literal com seu serviço, nesse ponto o leitor já deve ter notado que ele era um trabalhador relapso (por outro lado talvez seja redundância dizer isso de um funcionário publico). Cagou tudo. E acabou prejudicando uma licitação importantíssima da qual Claudia era a encarregada. Fato é que ambos tiveram que sentar e conversar tentando arranjar uma solução que não ferisse a população (como se a licitação em questão em si não fosse uma atrocidade para com os contribuintes).
Nossos heróis estavam numa sala pequena, sem janelas, cinza, com esses moveis brancos de escritório (de qualidade inferior diga-se de passagem, certamente algum figurão lucrou com a licitação dos moveis). Dada a importância da situação Claudio não ficou nervoso como ficaria numa conversa com alguém do sexo oposto. Ainda mais um ser gotoso do sexo oposto. Conversaram, ele logo assumiu a culpa e ficaram imaginando uma solução, pra que aquele egoísmo não destrua a licitaçãoooooo********. Durante o papo conheceram-se um pouco, e riram em alguns momentos, Claudia gostou do jeito como Claudio levava a vida, que definiu posteriormente como 'meio away'. E ele gostou de toda a preocupação que ela tinha pelo trabalho, lembrava-o dele mesmo quando tinha entrado no serviço. Em determinado momento Claudio notou que ela estava sempre sorrindo e tocando o cabelo, foi a brecha para o velho Cláudio de Guerra entrar em ação e ask her out (o narrador esta dado a estrangeirismos hoje). Ela que estava meio cansada de haging out********* com o mesmo estereótipo decidiu aceitar.
Fato é que eles saíram depois do trabalho para um café. Como narrador imparcial que sou eu vós digo, caros leitores, que eles combinavam. De uma licitação que só podia dar merda sairá*********** um relacionamento de longa-duração (que pode ser visto como uma 'cagada substancial' ou uma salvação para duas vidas medíocres).
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* Aquele que obra, do verbo obrar. NA.
**Como qualquer homem em sã consciência faria. nota universal.
*** Quando digo pijama sexy imagino uma lingerie preta. NA.
****Nota-se um descuido do autor e/ou do narrador, afinal ele falou que o pijama era sexy não a garota, talvez na cabeça dele isto tenha ficado subentendido. NE.
***** Aparentemente pêlo e pélo (do verbo pelar) perderam os acentos com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, assim sendo distingue-se apenas pelo contexto. NT.
****** very healthy - pseudônimo de Vera Rolf - ex campeã olímpica em salto com vara modalidade vegetariana. NT.
******* Outro descuido do autor ao supor que toda mulher bonita e que dispende muito tempo cuidando da sua beleza tende a não ser uma pessoa de verdade, aqui teríamos que discutir a concepção de pessoa e questões metafísicas. Consideremos (por motivos de saco cheio) que o autor errou. NE.
******** Ver música "Será" da banda Legião Urbana. NA.
********* ask her out - convidá-la para sair (no contexto). haging out - eufemismo para 'dar'. NT.
********** Nota-se que ao longo do texto o autor/narrador comete diversos 'erros' em relação ao tempo verbal, perde-se a sequencia lógica ao confundir o pretérito perfeito com o imperfeito e até com o presente, por isso ate hoje ele não escreveu nenhum livro. Por hora deixemos tudo no passado. NE.
************ É bom que vocês leiam estes asteriscos todos, porque me deu muito trabalho coloca-los em ordem e boa parte das piadas ( O LÚDICO) do texto esta aqui, módafôcas! NA.
domingo, 1 de maio de 2011
Café da Manhã

O despertador do celular tocou as dez para as oito. Era um bom horário, não muito cedo. Ele se sentou na cama, desligou o alarme, e virou para o lado, deu um beijo na testa dela e tentou acorda-la, mesmo sabendo que ela não levantaria até ele levar o café. Mesmo assim ele gostava de beija-la e olhar pra ela antes dela acordar. Levantou-se devagar e esfregou os olhos enquanto ia ao banheiro. Foi a cozinha e começou a preparar o café, pôs agua para ferver, colocou o pó no coador e começou a preparar as torradas. Enquanto a agua fervia ele foi se trocar. Aproveitou para olha-la dormindo novamente, ela era engraçada, ele deu um sorriso com o canto da boca, estava se sentindo bem.
A agua ferveu, ele passou o café, preparou as torradas, uma com manteiga e uma com geleia para cada um, preparou o café dela na xicara lilás, pouco leite e pouco açúcar, e levou o café para o quarto. Dessa vez ela despertou, alias com um sorriso encantador, ela agradeceu deu um jeito que ele não se importaria em ter que fazer aquilo a vida toda. Ela pegou a xicara com as duas mãos, e ele adorava o jeito que ela fazia isso! Tomaram café juntos, sentados na cama, conversando pouco, mas rindo bastante, estavam felizes.
Ela se levantou e quis tomar um banho rápido, já estavam atrasados. Ele guardou as coisas na cozinha, e olhou pela janela enquanto esperava, dia cinzento, mas pelo menos não estava frio. Depois disso ele foi ao banheiro e ficou olhando para ela enquanto ela secava o cabelo, ela fazia caretas pelo espelho e ele entrou no jogo. Riram mais um pouco. Ela terminou a maquiagem, pouca coisa, e ele gostava do seu jeito de se maquiar, não precisava de muito pra ficar bonita, alias, não precisava de nada.
Estavam prontos, hora de ir. Agora ele estava com um nó na garganta, e ela sabia. Abraçaram-se demoradamente. Os cabelos dela eram longos e ainda estavam molhados embaixo, ele adorava isso, sentia seus braços irem molhando vagarosamente. Quando o abraço parecia estar se acabando ambos apertaram mais forte e ficaram ali sentindo um ao outro.
Afastaram-se e ficaram apenas de mãos dadas e se olhando por um tempo, em seguida ela foi andando, meu Deus como ele adorava o jeito que ela andava! Ele a observou por um bom tempo, ela olhou pra trás e sorriu, sorriso lindo aquele!
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Chuva
Caia devagar, eu conseguia contar os pingos que me acertavam -1...2...3,4,5...- eram daqueles pingos grossos que parecem explodir quando caem no chão. Passei a reparar nas pessoas, lentamente retiravam os guarda-chuvas da mochila, as sombrinhas das bolsas, ou simplesmente colocavam o casaco na cabeça. Os comerciantes tiravam as placas de propaganda da rua, tiravam as caixas de som das entradas das farmácias, lojas de roupa, etc.
A manhã tornavasse silenciosa, as filas dos bancos moviam-se lentamente para baixo das marquises. A frequencia dos pingos aumentava rapidamente, logo sentia a água fria escorrendo pelo meu cabelo, a blusa ficando encharcada, preferi não ir para baixo das marquises, estavam lotadas, e de qualquer forma seria um desrespeito para com a chuva.
Fiquei no meio da calçada, pensando com os meu botões "Ah se a chuva pudesse lavar essa falsidade, lavar a minha hipocrisia! Ah se essa calçada me levasse pra outro lugar!"
terça-feira, 22 de junho de 2010
o Funk e o Funk
No fim da reportagem há uma critica duríssima à comparação existente entre o funk carioca e o funk ‘original’ de James Brown (até rima)! Pois bem, o escritor desta reportagem literalmente “desce o sarrafo” no ‘funk’ carioca, ou ao menos no fato de chamar o funk do morro de funk, assim como seu antecessor rico. Argumenta o rapaz, que isso é uma afronta ao estilo original por dois motivos principais: as letras pobres, e a música (harmonia, melodia) pobre.
Após ler isto me pus a pensar naquela música da James Brown:
Get up, (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine, (get on up)”
O leitor deve concordar comigo que não há nada de muito construtivo/ profundo/ subjetivo/ introspectivo nessa música. Ao contrario, o objetivo é claro, fazer o ouvinte se chacoalhar (se é que ainda existe esta palavra) e a letra é obviamente de uma conotação sexual. Não vejo problema nisso. Alias como sociólogo (ou antropólogo) vejo estas manifestações culturais como um fato que tem um objetivo e uma causa. James Brown e toda a industria por trás dele, bem como os seus antecessores que lhe influenciaram, conseguiram chegar onde chegaram pois havia uma demanda por este tipo de música, havia espaço. Também se olharmos a musica pelo seu viés técnico não veremos nada de difícil ou complexo em sua construção: poucos acordes que se repetem por toda a canção, e um ritmo marcante.
Agora voltemos ao morro. Pelo que me lembro o funk era criticado por não ter uma música complexa e por suas letras de conotação sexual. No que ele difere mesmo do seu primo rico? Porque insistimos em louvar uma manifestação cultural estrangeira, bem localizada no ‘main-stream’ da indústria musical que tem por característica as mesmas marcas do estilo mais demonizado pelos ‘intelectuais’ do Brasil?
Algum tempo atrás li uma frase de um famoso produtor musical e ótimo guitarrista de jazz que afirmava ter criticado por muito tempo as musicas ditas ‘do povão’, mas com o tempo percebeu que se shows deste estilo conseguem levar mais de cem mil pessoas a um estádio é porque há algo ali que agrada outros seres humanos.
Se de fato o objetivo dos bailes funks é o sexo, as músicas de James Brown parecem funcionar na mesma lógica (não é a toa que volte-e-meia as festas de casamento tocam músicas como esta em questão e ‘YMCA’ do Village People).
Volto a indagar então o por quê do preconceito? Não digo que devemos admirar, chegar em casa e escutar este tipo de música, afinal cada um ouve o que gosta (ou o que a sociedade te fez gostar - só pra provocar um pouquinho os que se acham indivíduos descolados de um contexto sócio-cultural-) mas afirmo que este tipo de critica já é pessimamente construída é mostra o quanto prezamos por tudo o que é importado, pasteurizado e dado como bom pelas grandes meios de comunicação.
Em defesa do autor, ele afirma que de fato há vários músicos de qualidade que saíram da favela e de morros e cita alguns, ironicamente estes citados são pessoas que foram absorvidas pela industria musical brasileira. Mas ele falha de modo decisivo ao não perceber que há um contingente imenso da população que tem nesses funks elementos constitutivos do seu dia-a-dia, e que as musicas ou os bailes de fato transmitem alguma coisa para elas (nem que seja esperma – brincadeira, perco a linha de raciocínio mas não perco a piada). Seu caráter independente e tecnicamente tosco serve apenas para mostrar a o quão heróico e socialmente necessário e o funk, afinal ele não precisou ser produzido em estúdios caríssimos nem pasteurizado pelas mixagem que igualam todas as musicas para se tornar um sucesso.
E se o nome pegou é por que semelhança há. Faço minhas as palavras deMichael Moore ao presidente Bush, para o autor desta reportagem “Shame on you F.S., shame on you”.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Apontamentos antropológicos: o agroboy
Bem, e o que é o agroboy? Para quem não está familiarizado com o cenário de pastos no horizonte, carroças que cruzam a cidade puxadas com força animal e quero-queros audíveis no fim de uma tarde, digamos que se o playboy é o filhinho de um papai médico, advogado ou empresário, o agroboy é o filhinho de um papai agricultor muito bem sucedido. Aqui pros lados do Norte do Paraná, ele é a típica prole da terra vermelha com a soja.
O agroboy é aquele sujeito que não quer o carrinho arredondado europeu, quer a camionete barulhenta das pradarias norte-americanas – é, bem aquela que corre ao lado de cavalos selvagens. Não se veste como a juventude utópica das novelas da Globo, mas sim como um cowboy saído diretamente de algum saloon que não existe senão enquanto representação de uma vontade coletiva; o agroboy usa as calças apertada
s feito embalagem de café, cinto com uma fivela do tamanho da tampa de margarina, e suas camisas sempre deixam à mostra o peito – com ou sem cabelo... vale notar essa variável.
(Alias, procurando uma foto para este texto, descobri que o agroboy já esta sendo incorporado como um 'novo movimento cultural mundial'. Acredite se puder.)
A verdade é, e realidade foi, que fiquei arrependido por um ingresso já pago para um tal de Batidão Universitário – as vezes o bom senso da gente sofre umas recaídas e nos mete em cada situação... – e só por isso saiu a analise aqui transcrita. Como uma luz no fim do túnel, as capengas aulas de antropologia ofereceram um alento contra meu desespero. E tudo se encaixava para isso uma vez que o estranhamento - visual, auditivo e social - foi completo durante o tal do Batidão, e pude então ver o agroboy e logo em seu habitat social típico: uma festa de música sertaneja regada a álcool.
Mas, oras bolas, de onde surgiu o agroboy? E essa bizonhice – com o perdão da subjetividade exposta – chamada Batidão Universitário?
A cultura enquanto um quadro amplo nos lembra a máxima de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma. Assim, o agroboy é como o ponto intermediário da passagem do mundo rural ao mundo urbano. Ele incorpora as novidades mas sem abrir mão de certos resíduos e reminiscências. Ele é o mix pós-moderno da cultura de massas, consumismo, ensino superior, urbanidade e agropecuária. Cultura é mesmo um treco multiforme - ou seria, nesse caso, disforme?.
(Para quem se perguntou por que do Universitário, vale lembrar que tudo que carrega essa palavra passa as ser extremamente legítimo. Forró, funk, sertanejo ou sabe-se-la-mais-o-que, são coisas aceitas desde que venham com o universitário como adjetivo condicionante, e sem ele, seriam coisas bregas, toscas, sem noção, etecétara e tal)
Olhando para o agroboy como essa figura mixada, entendemos também o Batidão Universitário posto que o segundo só existe por causa do primeiro – enquanto origem e enquanto destino da demanda satisfeita – e também é um mix surreal. Pois no Batidão – aquelas longas, tortuosas, lentas e sofridas 4 horas de trabalho de campo – a viola e a cerveja se fundem com as batidas eletrônicas e o ecstasy. É a mistura (in)sensata de duas vontades: a de não largar o osso da tradição do campo, mas incorporando o que é moda na cidade. Em miúdos: mistura de música sertaneja intercalada com batidas eletrônicas – sim, isso existe, e gera a curiosa figura de um comboy que escarra no chão displicentemente e, em seguida, está se requebrando todo num tunts-tunts frenético, fazendo parte inclusive daquela multidão enchapelada que compartilha de um frisson quase ritualístico.
Enfim... depois de tão pífia análise, encerro o tormento do leitor com a lembrança do texto em que o Thiago certa vez aqui postou discutindo para que servia Ciências Sociais e concluindo serem elas um belo hobby.
Eu assino embaixo e emendo: hobby principalmente para situações adversas como um evento suspeitíssimo chamado Batidão Universitário tomado por agroboys.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Luís e a Vida Positiva
Preparou seu café, evitou colocar o açúcar, também havia aprendido como a alimentação saudável pode mudar o movimento do cosmos e fazer a manutenção da vida ‘positiva’. Comeu uma broa integral com queijo branco, qualquer pessoa em sã consciência acharia aquilo horrível, ele adorou. Fez a barba e se perfumou, sabia o quanto a boa apresentação é positiva para a percepção que as pessoas fazem de si. Tomou o ônibus um pouco mais cedo do que o de costume.
Logo que entrou no ônibus, teve sua primeira prova de paciência, o ônibus estava lotado. Respirou fundo, e fez como lhe ensinaram, pensou em um lugar bonito, voltou a concepção holística do universo entendeu todos os presentes ali como seus irmãos, procurou se colocar numa situação de empatia, e entender que todos ali tinham suas preocupações, e que se estavam ali provavelmente havia algo que os unia. Uma convergência de contextos, que gerou uma conjectura própria, com suas regras específicas e ele aceitava o papel de ser um cavaleiro numa cruzada para impor os princípios de respeito e amor naquele local. Assim, foi entrando no ônibus, pedindo licença e tentando ser o mais educado possível. Apesar de seus esforços só conseguia com que as pessoas bufassem quando ocorriam encontrões. Aos trancos e barrancos chegou até a cobradora. Como um bom representante da ‘filosofia da vida positiva’ havia deixado o dinheiro separado, em moedas, para facilitar o troco. Exatamente no momento em que pegou as moedas nas mãos o ônibus freou bruscamente, as moedas espalharam-se por todo o ônibus, pisoteadas por todos. Não havia a menor possibilidade de sequer pensar em junta-las. Uma raiva lhe subiu, mas ele conseguiu se controlar e evitou o xingão que estava prestes a bradar.
Respirou fundo, pensou em um lugar bonito, pegou a carteira. Deu bom dia a cobradora, ela olhou-o com desprezou e balbuciou qualquer coisa, o que só o fez aumentar a raiva. Só tinha uma nota de 50 reais na carteira, deu-a para a cobradora, ela retornou 20 reais de troco, ele ficou esperando o restante, ela apontou para a plaquinha na janela que dizia “Troco Máximo 20 reais”. Ou seja, pagou trinta reais numa viagem de 30 minutos. Pensou em reclamar, mas sabia que aquilo não cabia a quem queria levar uma vida positiva. Pagou, pensou em um lugar bonito, o número de arvores deste lugar diminuía em seus pensamentos, e os animais do lugar estavam ficando de mau humor também.
Entrou mais adentro no ônibus, as pessoas bufavam, mas não havia como passar sem empurrar, além do que todos o olhavam com desprezo por ter pago trinta reais na viagem. De repente ouve-se um barulho na parte da frente do ônibus, parecia que uma pessoa havia caído. Logo chegou a noticia, uma senhora velhinha tropeçou em uma série de moedas de cinco centavos, que um engomadinho havia derrubado! Todos a sua volta o olharam feio. Um deles perguntou “Pra que tanta moeda cara? Você ta loco?”. Luis corou. Tentou pensar num lugar bonito, mas sua floresta florida estava tornando-se um cerrado...
Pouco depois uma outra senhora apertou a campainha para descer muito perto do ponto e o motorista deu outra freada brusca. Acontece que a senhora não conseguiu se segurar nas barras, e para não cair segurou o Luís, tão forte que ele sentiu carne ser arrancada pelos seus arranhões. Todos em volta deram sorrisos de satisfação, parecia alguma forma de vingança pela velha do parágrafo anterior. Tentou pensar em um lugar bonito, mas a única coisa que vinha a sua cabeça era um descampado.
Desceu em seu ponto, suas costas doíam e incomodavam. Uma pessoa na rua lhe falou que sua camisa estava suja de sangue. Ele olhou no vidro de uma loja, de fato estava. O pior é que ele tinha uma reunião importantíssima no primeiro horário. Correu para tentar comprar uma camisa em uma loja, comprou e fez um curativo rápido, assim que saiu da loja e foi atravessar a rua um carro passou por uma poça e expirrou lama nele. Ele estava na quadra do trabalho, e cerca de trinta minutos atrasado para a reunião com os maiores acionistas da empresa. Decidiu entrar.
Estava tão sujo (naquele ponto o curativo das costas já havia rasgado) que o segurança não o reconheceu e tentou impedi-lo de entrar, ele não tinha tempo de explicar, e era o único com treinamento em English Bussines Aplication, portanto o único que poderia dirigir a reunião,entrou correndo. O segurança foi atrás, mesmo assim chegou no elevador antes dele.
Chegou em seu andar, e entrou correndo na seção, todos olhavam aquilo assustados, ninguém o reconheceu, nem mesmo as menininhas que tentavam seduzi-lo para subir na empresa. Entrou na sala de reuniões dizendo para si mesmo “pense num lugar bonito, pense num lugar bonito...”. Mesmo assim, só pensava no caos, na fumaça na lotação, na ausência da paz, barulhos corriam em sua cabeça, e flashes de luzes.
Seu chefe o reconheceu, mandou-o se acalmar, disse que não era necessário entrar na sala, pois o funcionário novo já estava fazendo a ponte e dirigindo a reunião, disse para ele não se preocupar e tentar ver o lado “positivo” de tudo aquilo.
Tentou pensar em um lugar bonito, só viu a imagem da explosão nuclear em sua cabeça, quando viu sua boca abriu automaticamente e gritou “positivo o c***!” derrubou seu chefe com uma bordoada (ele foi quem foi com ele para as reuniões da filosofia da vida positiva) e estava encima do funcionário novo (também adepto) enchendo-o de porrada. O segurança chegou e tentou para-lo, Luis jogou-o por cima dos ombros, e começou a gritar a bater contra o próprio peito, numa cena digna de King Kong.
A policia foi acionada, e como era uma empresa rica, chegou rápido. Levaram Luis que estava em estado catatônico num canto após ter posto em nocaute o diretor, o funcionário novo, a equipe de sete acionistas da empresa e mais alguns curiosos.
A polícia fez algumas perguntas ao pessoal, todos diziam que foram coisas horríveis que aconteceram, a volta à barbárie, uma encenação dos instintos mais primitivos, assustadores e prazerosos (uma mulher disse isso) do ser humano. O pobre Luis foi encaminhado a um Centro de Recuperação PsicoTerapeuticoAntropoSocial, e logo morreu de desgosto. Ele foi para um lugar bonito.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Assim é uma cidade do interior
Enquanto escrevo isso, o sol ali fora doura a vizinhança: as casas vizinhas, os caras que pintam o muro, as árvores grandes, a rua estreita. O vento é fresco e traz o canto dos passarinhos – uns pardais amarronzados e uns mais coloridos que faço a mínima idéia do que sejam; volta e meia as crianças passam correndo de bicicleta rindo, e depois passa um sorveteiro e sua buzina clássica que o anuncia. Mais cedo passou o verdureiro com a carroça puxada por um cavalo, sovado e cansado, e mais tarde, caindo a noite, passará uma legião de velhos caminhando para a igreja que fica umas ruas adiante. E assim a cidade do interior cruza o dia.
Mais tarde também, antes de anoitecer, é hora de ir no parque; depois da seis, do fim do expediente as pessoas saem dos seus trabalhos e vão bater perna na pista que circunscreve o lago do parque municipal. As crianças vão de motoca – sim, isso ainda existe -, os adolescentes com perfume – sempre é hora de
paquerar por aqui – e os adultos com roupas de exercício mas que escondam as barrigas de cerveja e carne – que se repete todo final de semana, só muda a casa do ‘compadre’. E se não é o parque, são as ruas comuns mesmo; com o final da tarde os alunos das escolas passeiam para lá e para cá tomando sorvete e atualizando as fofocas.Aí todo dia é dia de feira. As melhores são as de terça e sexta-feira. São aquelas que aparecem mais feirantes e mais pessoas; no início da feira, que começa pelas cinco da tarde, vão as pessoas que querem comprar legumes, frutas e verduras; também tem café moído na hora, pão caseiro de todo tipo e tanto tipo de farinha que é preciso de um intérprete para saber qual é qual. Aí, quando a noite vem caindo, a feira é tomada pelos mais novos; comem coxinhas, pastéis, tapiocas, espetinhos de carne e de queijo, bebem sucos naturais, garapa – com abacaxi, limão ou pura, vai do gosto -, matam o tempo até ficar tarde demais e as barracas começarem então a se fechar. E assim se diverte a cidade do interior.
Na ruas as pessoas encaram, olham, cumprimentam. Quem chega de fora é notado e estranha tamanha invasão ocular – deve ter nome melhor para as insistentes olhadas, mas fiquemos com invasão ocular que até sofistica esse texto simplório. Na feira, no parque e na igreja – o que resume bem a vida social curta, mas nem por isso simples, da cidade do interior -, todo mundo já nota quem é daqui e quem é de fora, pois quem é de fora ta sempre fingindo que não conhece ninguém e que não existe situação própria para soltar um ‘boa tarde!’ senão em uma situação formal. Velhos ou jovens, as pessoas realmente cumprimentam; basta fazer o mesmo trajeto, cruzar nem que seja a mesma esquina ou caminhar na mesma hora, e vai estar aí uma situação boa para um cumprimento cordial. E é assim que as pessoas funcionam no interior.
É um universo peculiar, único, que cada cidadezinha do interior do Paraná apresenta e é. Nada resume, nem quando falamos com respeito e menos ainda quando se fala com desprezo. Cidades do interior são o que são, e, ah, são muito! Aí chega um pseudo-curitibano e pseudo-cientista social tirando uns dias de folga, caindo sem pára-quedas numa cidade assim – ‘a modo’ de visitar seus pais, diriam os nativos daqui -, e fica todo bobo. Mas a bobice é perdoada; por mais que seja bom estar numa cidade grande que corra independente de você, indiferente a você, e livre de você, acordar e ver que o horizonte não é tomado por prédios é uma coisa que dá um conforto; sabe-se que andando uns poucos quilômetros tanto ao norte, ao sul, a leste ou a oeste, a cidade acaba, os rostos se repetem, e a vida parece um pouco, um pouquinho só mas já o suficiente, mais colorida do que nas grandes capitais.
O vento cessou um pouco, os caras que pintavam o portão deram um tempo; o sol ta muito forte. As crianças do vizinho agora se reúnem embaixo de uma árvore, e do outro lado da rua a babá cuida de uma menininha de no máximo 4 anos que brinca com uma boneca. O sorveteiro vem voltando, ao longe já da pra escutar novamente a buzina; os pardais fazem a festa no monte de areia que ta posto na construção inacabada ali na esquina, e também é possível escutar uns quero-queros que voam por perto. Mais ao longe, quase que raramente, escuto uma moto que cruza a cidade; estando só a 5 minutos do centro, parece até que aqui não há carro. Ah, assim é uma cidade do interior.
sábado, 25 de abril de 2009
O que resta ao orante
Que o Rubem Alves ignore a coincidência do exemplo, mas um bom chefe de cozinha é um sujeito chato por excelência – o chato é por minha conta. Acorda antes do sol e vai à feira. Permite-se absorver pelas cores. Pergunta. Apalpa. Cheira. Degusta. Calcula: a confiável couve do seu Armando, ligeiramente amarelada, ou a exuberante porém desgostosa couve da dona Amália?
A manhã vai alta quando enfim as especiarias mais apetitosas terminam de escolhê-lo. Munido, enfim, dos ingredientes mais frescos, fecha-se em seu templo para celebrar. O quê? Celebrar o sabor. Celebrar o sabor é a sagrada linguagem do mestre-cuca.
Que é carregada de ritos. O chefe devota atenção paternal aos itens de sua dispensa. Desembrulha o repolho com desvelo; amacia os extremos do pepino para não lhe ter amargo; abre a couve [do seu Armando] em mil tiras sem largura; faz do tomate oito gomos precisos; descobre cada curva da alface sob a água corrente; trata a berinjela; declara-se à cebola.
Feito isso, reúne sua prole dentro de relicários de metal em mística irreproduzível. O relógio confere: cozinha, cozinha, cozinha – e eis que se enche de aromas e sabores! As mágicas cotidianas invadem fronteiras para declarar que está na mesa aos homens de bom apetite.
No entanto, só e sem chapéu, recolhe-se. Restam os restos. Pratos, travessas, colheres e tampas: escombros da ilusão matinal. Solidão inexorável. Ingrata missão essa que avassala a alma e que se lava dia-após-dia.
Amanhã levantará antes do sol. Que ímpeto em recomeçar! Cozinhar também é uma arte que nos exige a alma. É muito mais que mera fervura: é um olhar temperado sobre a vida.
terça-feira, 3 de março de 2009
Mágico de Boz- tá bom...
Era uma vez três amigos. À um deles faltava coragem, para lhe dar com as mulheres, ao outro coração, para vencer o objetivismo, e ao outro faltava o cérebro, para conseguir completar as idéias. Quando alcançaram idade suficiente para se dar conta disso resolveram ir atrás de um tal mágico milagroso, a quem se atribuía as maiores maravilhas e poderes de cura, e isso que ele nem tinha um canal de televisão.
No caminho até esse mago, encontraram uma tal de Alice ou Aline não se sabe ao certo. O fato era a semelhança de suas roupas com o personagem Wally, que ninguém sabe a este ponto, ao certo, onde está. Outro fato certo é que ela havia vindo de outra história (ou curso), alguma coisa sobre um país das maravilhas, que era de fato onde ela sempre estava com a cabeça. Chega de fatos e cacofonias. O último fato, perdoem-me os leitores, é que ela, sem convite prévio certo, vejam bem, ingressou no grupo, o que foi bom porque ela não deixava o sem coração andar sozinho na frente.
Por fim alcançaram o mago, ao pedirem-lhe os favores ele os mandou escrever um blog por algum tempo, e que ao fim de um período eles teriam uma surpresa.
Depois de árduos textos, versando sobre os assuntos mais diversos, e alguns sobre o nada, eles voltaram a falar com o mágico. Ele perguntou ao sem coração:
- Sobre o que você escreveu majoritariamente?
- Sobre coisas afetivas, formigas, família, saudades, ruas, beijos...- respondeu ele.
O mago dirigiu-se então ao sem coragem:
- Após seus textos, quantos comentários de meninas, depoimentos, e recados você recebeu?
- Inúmeros – Respondeu ele sorrindo.
Por fim perguntou a mim, digo ao último:
- Você leu todos os textos?
- Praticamente.
- Entendeu-os?
- Não, a maioria não pelo menos, não entendia as palavras e o objetivo.
- Sobre o que foi o seu último texto postado?
- Uma analogia entre uma história pseudo-infantil e a vida real, utilizando personagens desta.
- Pois bem, você já tem um cérebro! Só com ele você poderia criar uma narrativa tão brilhante.
- E quanto a vocês – dirigiu-se aos outros dois – Vocês também já tem o que queriam! Sob uma carapuça de objetivismo e cientificismo escondia-se o seu coração meu caro. E você sempre teve a coragem para as garotas, mas você usa-a de outro modo, mais intimista, alguns diriam até gay.
-E quanto a você...- dirigiu-se à menina-...o que você queria mesmo?
Os meninos sabiamente puxaram-na para fora antes que ela começasse a falar alguma coisa sobre a amiga de direita (ou do direito) dele, e assim aborrecesse o mágico.
E assim acaba a nossa história, os quatro foram saltitando de volta para casa, ao som de Somewhere Over The Rainbown (a versão do Eric Clapton, é claro) cientes que bons tempos como estes não voltam.
ps.:Minhas Excusas à:
- Os leitores (pela minha demora em postar um novo texto, o que acarretou no fato de vocês terem de ler textos de fontes não confiavéis)
- Alice ( Acho que exagerei dessa vez)
- Amiga da Alice (Malz aí)
- Carlos ( foi o césar que pediu retaliação pq vc sempre zoa a gente nos textos)
- Aos leitores (por escrever coisa que poucos vão entender, ou que muitos farão pouco caso)
- A mim mesmo ( porque ngm merece ficar se excusando por tudo)
domingo, 21 de dezembro de 2008
Introdução ao natal

Primeiramente deixo aqui claras minhas limitações para falar de qualquer coisa referente ao natal. Creio que os outros dois cavaleiros cocotidinistas cibernéticos deste blog poderiam fazer uma empreitada literária mais natalina, afinal, ambos tem um lado espiritual que eu, pagão que só, não tenho. Porém fica aqui minha contribuição para a semana de natal...
Nos livros de história, há uma expressão máxima quando se fala da primeira(ou seria segunda?) guerra mundial: a Europa era um barril de pólvora prestes a explodir. Peço toda licença a aqueles que acreditam que natal é tempo de paz, alegria e confraternização, para dizer que tal metáfora sobre a segunda(ou seria primeira?) guerra mundial se enquadra perfeitamente ao natal.
Por que? Bem, reunir tios, primos, avós, irmãos e todo tipo de agregado, sempre é fácil dar problema. Até porque sempre tem um infeliz que dá a infeliz idéia de juntar, na mesma mesa, duas pessoas que não se bicam, só para que elas façam as pazes aproveitando ‘o espírito do natal’. Inocência tal qual a dos comunistas deste mundo afora.
Fato ainda é que nenhuma família é tão perfeita a ponto de não haver questões em aberto entre seus membros – um eufemismo sempre vai bem no natal. Tais questões podem vir a tona por motivos bobos em um natal, e sempre acaba com alguém em lágrimas dizendo que a culpa da desgraça da sua vida é por que quando tinha 5 anos seu irmão furou a bola que ganhou de natal. Essa é a nostalgia do natal, lembrar das velhos e adoráveis traumas que surgem no seio familiar!
Sugiro até que para o próximo passo evolutivo da espécie humana, as famílias venham com um prazo de validade para convivência e coabitação impresso na embalagem: Não permanecer reunida por mais de 3 dias, podendo causar lesões físicas e psicológicas. Acho que aqueles de sangue italiano teriam um prazo bem reduzido(experiência própria).
Mas antes que, prosseguindo nas metáforas, alguém mate Ferdinando ou invada a Polônia, o natal até que é legal. Além do que, briga em natal quando a família se reúne é algo pressuposto, senão, o que será prometido para o ano que vem vindo? Junto das promessas impossíveis – afinal, ninguém prometeria se estivesse realmente a fim de cumprir o prometido – está a utópica paz e reconciliação familiar.
Por fim, aproveitemos o espírito natalino, época mágica em que podemos lavar os pratos sujos e usar logo em seguida o réveillon para desfazer o que foi feito durante a ceia.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Teoria da Dualidade
Roma: você lembra dos nomes do primeiro triunvirato? E do segundo? Não? Pois é. Três dá cagada. É fatal até pra memória. Como dizem, três é demais. Não foi por acaso que a Itália virou no que virou. Tudo culpa do Tito Lívio e daqueles outros dois. Graças a eles, a Itália virou expert em máfias, salames e ditaduras clericais seculares. Custava eleger um macho-alfa, como a Aline, pra por ordem na bagaça? Sigamos. Como diz o título, tudo é uma dicotomia. Veremos com profunda seriedade a seguir algumas evidências empíricas que servirão de subsídio para sustentarmos a Teoria da Dualidade.
O pão engendra o circo em seqüências históricas, compondo visceralmente o mundo em que vivemos. Desde o insight de Gutemberg e das marselhesetes, têm-se multiplicado a impressão de impressões causais sobre esse fenômeno. Maslow, para a complexa cadeia de necessidades, anseios e estruturas cognitivas humanas, criou uma pirâmidade. Pirâmides têm três lados, as mais famosas são três. Batata. O que era uma teoria da motivação [minúsculo proposital] entrou na Academia com força total e hoje em dia, com o advento dos clichês tecnológicos, a superficialidade crítica impera. Para Maslow, o ser humano passa fases como em um jogo de vídeo-game. Aos etíopes, jogadores iniciantes, restam duas saídas: 1) os div
ersos resets e revezes históricos; 2) comprar o histórico password com os jogadores mais experientes. Em tal barganha, os colaboradores da hierarquia humana ganham comida e, em troca, um horizonte.
domingo, 3 de agosto de 2008
sábado, 26 de julho de 2008
Teriam sido um feliz casal

Ele imaginava cada presente que daria nas datas importantes: flores que não fossem rosas, bombons e um porta-retratos personalizado para exibir na mesinha do computador a felicidade de um momento a partir de então eternizado. Ele assumia que isso não era lá muito criativo, mas ela gostaria mesmo assim; já tinha até imaginado o lugar onde poria o porta-retratos, as flores que não rosas e iria para sempre guardar a embalagem de cada bombom. Ela sabia também como apreciaria a foto em noites que sentisse saudades.
Ela não queria um cara pastel e bobo, mas nem por isso deixava de desejar que ele escrevesse rimas ou versos livres, desde que falasse do amor entre ambos. Ansiava receber cartas, bilhetes ou folhas de papel rabiscadas com palavras doces só para, um dia, mostrar a filhos e quem sabe netos. Ele já tinha um arsenal de poesias, ainda sem nome, mas que fariam mais sentido ainda depois que tomasse conhecimento da existência dela, a garota que queria o que ele tinha a oferecer; eram poesias sem título, mas de forma alguma sem alvo.
Moravam na mesma quadra, ele em uma esquina, e ela no meio da quadra. Mas se eram perfeitos em tantas coisas, seus horários nunca permitiam um encontro casual devido as ocupações de cada um, exceto nos finais de semana onde, por serem tão iguais um ao outro, pouco saíam de casa e não poderiam então se ver.
De escolhas em escolhas, sempre bobas e pequenas, foram adiando um possível encontro com um possível grande amor. Se ele passeava por aí de noite, ela ia de dia; se ele preferia as ruas paralelas, ela ia só pelas cruzadas; se ele escolhia sempre buscar pães na padaria do Zé, ela escolhia sempre os pães do Pedro. Algumas coisas na vida parecem conspirar para acontecer, já nesse caso, tudo encaixava de modo a impedir um acontecimento.
Passaram os meses e mudaram-se, ambos, daquela parte da cidade. Certo dia cruzaram pela rua sem que seus olhares se tocassem; ela ia pela vertical, ele pela horizontal. Continuavam perfeitos um para o outro, porém eram mais anônimos do que nunca; o acaso chegou fora de hora. Não que tivessem sua satisfação amorosa amarrada um ao outro, mas pena não terem tido a sorte de se conhecerem. Teriam sido um feliz casal, assim como você e aquela pessoa que deixou de conhecer hoje só por que preferiu ficar 15 minutos a mais no computador lendo este blog.
sábado, 5 de julho de 2008
Amizades
Creio não correr o risco de incumbir em nenhum erro ao afirmar que todos já tiveram um melhor amigo, ou um grande amigo, por algum tempo e de repente esta pessoa, que outrora fora tão importante na sua vida, simplesmente desapareceu do seu convívio. Por ser uma proposição com que nos identificamos tão facilmente acho que merece ser o centro da nossa análise cotidiana de hoje: as amizades.
Provavelmente você já teve a oportunidade de ir ao mercado com seus pais, e ver um deles reencontrar um velho amigo. As conversas sempre são estranhas:
- E aí como vai a esposa?
- Me separei, a safada levou quase tudo!
Ou do tipo:
- Opa -saudação comumente usada pelo fato de ter esquecido o nome o amigo em comum – como vai a empresa que você montou?
-Faliu!
Ou trazendo para casos mais próximos, dos jovens leitores deste blog, é como aquele grupinho de amigos que era tão unido no segundo grau e que durante a faculdade faz algum esforço para se encontrar, mas poucas reuniões depois todos percebem que as coisas já não são as mesmas e nunca mais se encontram (exclusas do nunca mais as exceções dos encontros nos mercados, alias parece que os mercados têm algum tipo que imã para fazer velhos amigos se reencontrarem). E o pior é que o mais vagabundo do grupo sempre se torna o mais bem sucedido e que viajou a Europa!
Enfim, as razões pela perda de interesse nas amizades parecem ser obvias, perde-se o laço que unia as pessoas rotineiramente, seja o trabalho, seja o emprego, seja a moradia. O que me faz pensar que as amizades verdadeiras são pouquíssimas, apesar de haver várias pessoas que você considera amigos nos seus círculos sociais (igreja, faculdade, clube de ajuda a populações carentes) uma vez cortado o pressuposto do pertencimento a estas instituições perde-se a própria essência do que unia estes amigos. E logo os papos tornam-se superficiais, simplesmente relembrando o passado, enfeitando as histórias. É até bom reunir os velhos amigos às vezes, mas quando você percebe que todos os encontros cheiram a naftalina é sinal de que a amizade não vai muito bem!
E é isso que me assusta com relação ao presente. Imagino daqui algum tempo quando o César se tornar um grande sociólogo, ou apenas um gênio literato incompreendido, e quando o Carlos se tornar colunista da Folha de São Paulo (censurado, jornal de direita) ou melhor Caros Amigos ou Carta Capital, ou até quem sabe o novo Fernando Sabino e um dia quando o Wal-Mart tiver comprado todos os mercados sem exceções nos encontraremos no estacionamento! Eles com carros zero e eu com o carrinho usado de um poeta ou músico frustrado ou um professor de sociologia! Então virão as perguntas:
-César, encontrou um amor inocente?
-Sim, casei com ela! Depois separei e ela levou tudo, inclusive as crianças!
-Carlos, achou a maleta de dinheiro?
-Olha meu caro companheiro, você nem imagina o que encontrei nesse jogo da política! (Pra quem não sabe o Carlos tem profundas ligações com um grande partido do Paraná).
Mas talvez se até lá essa mania de fazer compras pela Internet já tenha se popularizado evitemos esse tipo de constrangimento e passemos para outro tipo, conversa com velhos amigos via MSN. Pelo menos os silêncios no MSN são menos chatos dos que o na vida real!
sábado, 28 de junho de 2008
Um amor inocente, por favor
Perdoem tamanha subjetividade.
Era sexta-feira, final de semana e final de semestre. Cabeça a mil, coração perdido numa noite típica de quem só faz estudar. 21 horas e vou até a padaria comer algo depois da aula. Por mais incomum que isso seja de acontecer no dito estabelecimento(que aliás, merece um parentese já que foi lá onde, de um certo modo, este blog começou), um atendente chegou até mim e perguntou o que é que eu queria. Me contive e pedi alguma coisa para comer, mas que vontade de dizer polidamente 'um amor inocente, por favor'. Quem sabe tenha um doce com esse nome, mas provavelmente ele ficaria me olhando com cara de passado.
O que eu queria, de verdade, era um amor inocente, como aqueles que deixam de fabricar a uma certa altura da vida da pessoa. Eu queria, mas é um pedido para a coletividade, já que todos precisam dele. Minha teoria é que os quarentões que saem a caça das menininhas são só o resultado do confuso desejo desse amor inocente. O primeiro amor é o que fica não só por ser o primeiro, mas por que geralmente nasce com cheiro de vergonha, pudor, preocupação. As mãos suam, as orelhas ficam vermelhas e logo a vermelhidão vai para a cara toda. Os mais clarinhos sempre se dão mal nesse história.
Digo até que primeiro amor não tem que dar certo, basta que seja inocente. Não importa a idade em que o primeiro amor chegue, pois a inocência não se perde com os anos, mas sim com os amores que vem e vão. Estou falando do amor que não cabe em rígidas demarcações e conceitos; falo do amor que a gente toma por paixão e surge num olhar perdido e súbito. É o amor mais gostoso, por que nele só cabe a vontade pura e sem maldade. Dane-se a coerência, dane-se o sentido.
Não acho que amor tem que ser explicado, e a tendência de algum leitor perguntar 'mas afinal, o que é amor inocente?' só revela a falta que ele faz. Ele existe em relações que se concretizam, mas a concretude não é requisito; o amor inocente existe no beijo, mas existe muito mais no ruborizar; ele pode existir em adultos, mas insistimos em infantiliza-lo. Ele paira no ar pedindo para ser relembrado, mas que estúpidos somos nós em descarta-lo tão logo quanto podemos.
Há quem consiga prolongar esse tipo de amor até uma certa fase da vida, mas a duras penas. Talvez nossos pais e avós tenham conseguido extender isso por mais tempo, mas nós, alvos da mídia promíscua que nos dá namoro, casamento e divórcio, tudo na TV e no mesmo programa, estamos cada vez mais sendo convencidos a largar de canto o amor inocente.
Acho que o amor burocratizou e disso perdeu-se a inocência. Ninguém acredita mais nele senão houver coisas palpáveis ou factíveis. É todo um processo, longo e desgastante, até que o amor possa ser citado. Quero de volta o amor que surge do inexplicável, que não requer histórico nem prognósticos. Por isso defendo amor a primeira vista e até o amor virtual; creio serem os últimos redutos do amor inocente.
Dá dó desses garotos de hoje em dia. Na verdade sempre foram assim, mas acho que tá ficando pior. São todos vítimas da queda do amor inocente. Talvez sejam também as garotas, afinal, se até minha mãe fala do bumbum dos atores, o que dirão as garotas de hoje em dia. Dá medo. Mas são todos uns coitados, dignos de pena. Nunca sentirão o prazer de sentir a euforia que só o amor inocente proporciona quando se pega na mão da pessoa querida; hoje querem pegar logo tudo de uma vez, só para se gabar.
Ah, não queria ser saudoso ou nostálgico de tempos passados; nem parecer com esses hippies bobões que substancializam demais o amor. Mas que falta do amor inocente. A racionalidade nos toma, queremos experimentar tudo, nos deixamos influenciar por todos. Quando vê se foram as séries da escola e agora... tudo é instrumentalizado demais, chato demais. Ama-se não mais para você, e sim para os outros. O amor inocente talvez deva ser perdido para que possamos crescer e encarar melhor o mundo sem amor aí fora, mas que pena que dá ao vê-lo perdido em tão jovens casais.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
E o Verbo se fez Carne

Convencionou qualquer coisa de inteligível, aprendeu a grafar, passou a viver em comunidades fixas, aprendeu a domesticar animais e a plantar seu pão e a dividi-lo e a explicar a natureza através de mitos. Terceirizou-se.
Ridicularizou o mítico, questionou a si mesmo, perguntou do mundo, pôs em cheque o visível, adivinhou o invisível, duvidou da existência, deu o Causal ao Altíssimo. Terceirizou-se.
Cantou aos céus, deitou-se às bússolas e astrolábios, imprimiu o sagrado com sangue, romanceou o opaco, rogou insurreições, ignorou verdades, incendiou as virtudes, dizimou espécies, reinventou a roda em anti-horário, quadriculou o Supremo, abraçou morais estranhas, crucificou oferendas. Terceirizou-se.
Gozou com o rígido, confeccionou nova ordem, entregou-se ao progresso, escreveu e leu e rezou e marchou em línguas tantas, manufaturou quitutes, desconheceu a ponta do nó, suou a vida e a morte, expurgou natos nus, ajoelhou em terras improdutivas, ordenhou enteléquias frias, robotizou a argila, postulou seus complexos, lutou pelo terço do dia, fugiu de casa a foguete, militou pela inveja, elegeu conjunturas, compreendeu-se só, arquivou o homem auto-suficiente. Terceirizou-se.
Esqueceu a função, competiu com a sombra, não viu Marte ao olho-nu, engarrafou o escapismo, quixoteou a ética, culpou o gem, enovelou o linear, casou com a virgem dos olhos de vidro, trapaceou o espelho, comprovou renda para adquirir liberdade sem limite disponível, indicou um psicotrópico, julgou-se máquina-bicho, injetou no ramo sintético. Terceirizou-se.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
O lápis quer ser caneta.
O lápis queria, do fundo de seu grafite, ser uma caneta. Cansara-se de tanto escrever, rabiscar, riscar, para que depois viesse a implacável borracha e lhe apagasse. Queria que todas suas anotações fossem tidas como sérias e que uma vez escritas, nunca seriam reformuladas. Nem borradas!
Toda vez que se colocava de lado para que a caneta, toda prepotente, fizesse uma rubrica ou passasse a limpo tudo o que ele, o lápis, tinha feito, sentia-se nada mais do que isso: uma coisa que ao tornar-se inapagável teria de abandonar sua escrita original. Não tinha outro jeito, o lápis tinha que se tornar caneta.
Estava saturado de gastar seu grafite em poemas apaixonados e fórmulas exatas. Todas as palavras que tinha delineado para dar forma literária ao amor só tinham validade quando caneta passava-lhe sobre. Tudo o que conseguia calcular precisamente, de nada valia se não fosse em azul ou preto; o cinza, perecível a borracha, de nada valia. Quando retirava-se para dormir em seu modesto penal de colegial, perguntava-se por que de tamanha má sorte, por que de ter sido fabricado como um lápis e não como uma caneta.
Não gostava de escrever isso, mas sentia inveja da caneta; ela estava sempre pronta para o que desse e viesse, vivia mais, servia mais, vendia mais, era forte em várias superfícies e mais forte que o lápis justamente nas superfícies na qual eram sua especialidade. Um caderno em branco sempre daria mais notoriedade para uma caneta; até o sistema favorecia a caneta.
E não era só isso. Olhar-se num espelho perdido na mochila era sentir ainda mais inútil por ser um lápis; não vivia sem um apontador por perto, e quando estava sendo utilizado por uma das mãos, a outra sempre segurava uma borracha. Uma condição de existência estressante, além do que, a caneta vive muito bem sem qualquer apontador, ela é independente e inapagável.
A pior crise que o lápis teve, e que foi também a primeira vez que quis ser uma caneta, foi quando sobre uma folha em branco, a serviço de um apaixonado errante, escreveu numa linha coisas sobre o amor, a paixão, o futuro brilhante e a felicidade prometida, mas um ou dois dias depois, escreveram por cima dele com caneta, sem dó nem piedade, coisas sobre ódio, desilusão, passado frustrante e uma infelicidade constante. Só depois lhe apagaram e lá ficou, forte como sempre, as letras da caneta.
Por fim, o lápis cansara-se de seu ser-objeto. No fim daquele bimestre, quando chegara o seu fim e não lhe restavam mais do que alguns poucos centímetros de vida, olhou para todas as páginas que escrevera e que foram viradas displicentemente. O que seriam de todos seus verbos passados? Estava esgotado e sem ânimo para mais nada, estava para perder a ponta.
Como ultimo ato, quis fazer as pazes com a borracha. Falou-lhe de seus dramas existenciais, e a borracha, flexível como sempre, pediu desculpas sinceras e, tentando confortar o lápis, disse-lhe que deveria estar feliz por que de tudo o que fazia, pelo menos algo era visível -ou poderia ser-, ao contrario da borracha que só fazia apagar e nunca teria notoriedade nenhuma, nunca deixaria algo 'escrito' no caderno.
Ficou pensativo. Resolveu falar com o seu próprio coveiro, o apontador. Explicou-lhe dos seus problemas e queixou-se da condição de lápis. O apontador, frio em seu misto de plastico e lâmina, só disse que o lápis era um bobo, pois todos sabiam que se queixava de boca cheia; quem era aquele que dava os primeiros passos para a construção final, mesmo que ela fosse feita pela caneta? O lápis! O apontador finalizou dizendo que ele sim tinha motivos mais verdadeiros para se queixar, pois tudo o que fazia era uma pequena participação, e rara, em qualquer texto que fosse.
O lápis ficou confuso com o que ouvira, mas ainda estava certo de sua condição. Se a borracha era triste por não deixar nada escrito, o lápis achou-se mais triste por que tudo o que deixaria escrito um dia se apagaria ou seria ofuscado por uma caneta. Se o apontador achava-se triste por deixar uma pequena atuação na obra geral, o lápis sabia que sua participação seria sempre o meio termo, o chove não molha, o escreve e apaga.
Não adiantava, o lápis cansara-se de seu grafite e de sua sempre cinzenta presença. Antes de seguir para seus centímetros finais, imaginou por aulas inteiras realizando uma escrita colorida, inapagável, última, essencialmente com o pé na eternidade e fugindo da triste história de tudo que é efêmero perante uma borracha.
sábado, 24 de maio de 2008
Aos amigos de Comores
Comores é um discreto arquipélago ao sudeste do continente africano. Lá pelos idos de mil trezentos e bala Zequinha foi ocupada pelos árabes, o que determinou sua formação cultural e religiosa. No Século XVI, portugueses invadiram as ilhas – que ficam a caminho das Índias –, promoveram saques e destruíram a economia local. Desde então esteve sob domínio árabe e francês, até a proclamação da república. Uma das ilhas ainda se encontra sob domínio francês. As demais contam com sistema presidencialista – vitalício, praticamente. Além da instabilidade política, os comorenses sofrem com analfabetismo, desnutrição infantil, entre outros problemas.
E daí? Aí que está: daí que Comores somos nós e nossos badulaques, atabaques, luso-saques. Somos nós mesmos, senão por ofertarmos meia dúzia de itens específicos da lista de mercado da Coroa: ouro pro mês, uns troncos de pau-brasil, oportunidade territorial ímpar, um punhado de prata; e não esquecer daquela promoção barata de mão-de-obra.
E daí que pouco importa se eram muçulmanos, se eram cristãos, se não eram nada disso – aliás, hoje, o cristianismo é proibido em Comores. Pouco importa se eram vermelhos, pretos ou amarelos, antes dos sucessivos estupros pálidos. Pouco importa se caçavam, pescavam e colhiam desbravando o seu quintal cuidado pelos deuses ou se comiam à sorte da rede e de Alá. Pouco importa se éramos nós, se foi o nosso sangue que caiu, qual bandeira flamejava orgulhosa. Era gente, de carne, osso e um pouco mais, que conheceu a mais covarde selvageria. Criaturas vivas na rota da civilização que em um dia perdido foram o meio justificado pelo fim estrangeiro. Seres íntegros sucumbindo perante titãs com porretes de ferro. Pessoas, agentes transcendentes, atores históricos sentindo a essência da carne dilacerada por risos, urros, guinchos superficiais e ininteligíveis. Existências apagadas por monstros humanóides, viajantes em ilhas móveis empurradas por pano imensamente desenhado com cruzes púrpuras.
É evidente que a proclamação da república por si só em nada representa a libertação do povo comorense. Nós mesmos continuamos cerceados, subjulgados, espremidos entre dedos nortistas apontados em riste para nós. Seria ingênuo se felicitar e esperar reformas radicais a partir disso. Entretanto, a História nos prova seguidamente que as mudanças são graduais, que bem-estar social não se baixa por decreto – tampouco por revolução*. O processo de uma efetiva independência se constrói pouco a pouco, antes ao tempo do lápis [e da borracha] que ao tempo da caneta.Os votos que faço a Comores no trigésimo são os mesmos que faço a nós. Que são os mesmos que faço aos estadunidenses, errantes conscientes; aos franceses, que teimam na gafe; aos portugueses, que nada são além do século XVIII; aos cubanos, que erram ineditamente; aos chineses, que prometem errar. E que são os mesmos que faço aos muçulmanos, que já são a maioria de errantes; aos cristãos, errantes seculares; às boas e más pessoas, ainda errantes.
Navegar é preciso. Ser empático também é preciso.
*Dedico a presente nota à Aline: ambos questionamos a
educação que forma médicos em pencas mas não permitiria que eu publicasse esse
mesmo texto por a internete não ser liberada para domicílios.


