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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Substancialmente

(a leitura em ordem das notas, marcadas pelos asteriscos no texto, é fundamental para a compreensão do mesmo)


Claudio acordou cedo e dirigiu-se instantaneamente ao banheiro. Coçou sua barba que estava por fazer, alias ela sempre estava por fazer e sempre coçava. Ele deu o que gostava de chamar de ''uma cagada substancial'' aquela em que o obreiro* consegue por para fora tudo o que precisa, e melhor, não deixa muitos resquícios, o que torna a limpeza rápida e agradável (ou melhor, o mais perto de agradável que esta tarefa pode ser). Enquanto lavava as mãos ficou se encarando por um tempo no espelho, estava meio fora de forma com a barriga saliente, de samba-canção e uma camiseta cinza e desbotada, pensando na mesma merda de sempre (já que estamos falando disso): "Para onde estou levando minha vida? O que aconteceu com meus sonhos? por que eu não tenho coragem de sair desse emprego medíocre? ah é o emprego..." Estava um pouco atrasado, tinha tempo ou de tomar banho ou de tomar café, não os dois. Priorizou o café** que consistia em café em pão com ovo, seguido de mais café e bolachas.


Do outro lado da cidade Claudia começou seu dia de forma diferente. Acordou muito mais cedo que seu pseudo-homonimo-macho. Foi tomar banho, ela trajava um pijama ajeitadinho, poderíamos inclusive defini-lo como sexy. Ok, era um pijama sexy***. Enquanto tomava banho considerou a temperatura da água, sua disposição naquela manha, o cheiro do sabonete, do shampoo, do condicionador, do creme pré-banho, do creme de banho, do creme pós-banho e todos os acessórios adicionais cujos nomes desconheço e pensou "que banho agradabilíssimo!" Alias, teria pensado caso soubesse usar corretamente o aumentativo de agradável, o que não era o caso, na verdade ela pensou algo do tipo "que banho show!". Sendo uma pessoa extremamente vaidosa como era demorou algum tempo no ritual do banho, fazendo todas as feitiçarias que as mulheres costumam fazer nesse processo, e isso que não era sequer o banho de sábado, estávamos em uma quarta-feira comum. Posteriormente abriu sua necessaire, que do ponto de vista masculino continha tudo o que não é necessário (mas ok, tomemos o ponto de vista de um narrador neutro - como vocês percebem por ter chamado a garota de sexy no começo do parágrafo-****) e tomando um instrumento que não consegui identificar, mas que certamente era da família das pinças, passou a retirar pelos***** de seu corpo (ou rosto) até ficar perfeitamente simétrica, cada pelo tinha seu pelo´ (pelo linha).

Claudia tomou seu café, alias refeição matinal porque não tomava café, pão integral com queijo do tipo cottage light, uma fruta ressecada e um iogurte natural sem gosto. Sentiu-se very healthy******. Maquiou-se (não entrarei nos detalhes para não desperdiçar outro parágrafo da paciência do leitor) e foi ao trabalho.

Não sei se mencionei que Claudio e Claudia trabalhavam no mesmo lugar, uma repartição publica grande. Foram apresentados certa vez no passado e conheciam-se de dar oi e tchau.

A manhã estava agitada para uma quarta-feira. Não o suficiente para estragar o cafezinho que todo funcionário publico toma no horário do expediente para começar o dia. Nossos dois protagonistas se cruzaram no corredor enquanto iam resolver empecilhos burocráticos na papelada em que trabalhavam, trocaram um 'bom dia' e um sorrisinho. Claudia achava que o sorriso de Claudio, aqueles de canto de boca, e seu jeito 'descolado' ou 'descuidado' o conferiam um certo charme. E Claudio, como todos os homens da repartição, achava Claudia gostosa. Mas além disso achava ela uma pessoa intrigante, todo aquele cuidado com a beleza devia esconder uma pessoa de verdade******* por quem, por alguma razão, Claudio se afeiçoava. Por hora é só, cada um foi trabalhar.

Mais tarde, aquela tarde, Claudio fez uma cagada substancial não-literal com seu serviço, nesse ponto o leitor já deve ter notado que ele era um trabalhador relapso (por outro lado talvez seja redundância dizer isso de um funcionário publico). Cagou tudo. E acabou prejudicando uma licitação importantíssima da qual Claudia era a encarregada. Fato é que ambos tiveram que sentar e conversar tentando arranjar uma solução que não ferisse a população (como se a licitação em questão em si não fosse uma atrocidade para com os contribuintes).

Nossos heróis estavam numa sala pequena, sem janelas, cinza, com esses moveis brancos de escritório (de qualidade inferior diga-se de passagem, certamente algum figurão lucrou com a licitação dos moveis). Dada a importância da situação Claudio não ficou nervoso como ficaria numa conversa com alguém do sexo oposto. Ainda mais um ser gotoso do sexo oposto. Conversaram, ele logo assumiu a culpa e ficaram imaginando uma solução, pra que aquele egoísmo não destrua a licitaçãoooooo********. Durante o papo conheceram-se um pouco, e riram em alguns momentos, Claudia gostou do jeito como Claudio levava a vida, que definiu posteriormente como 'meio away'. E ele gostou de toda a preocupação que ela tinha pelo trabalho, lembrava-o dele mesmo quando tinha entrado no serviço. Em determinado momento Claudio notou que ela estava sempre sorrindo e tocando o cabelo, foi a brecha para o velho Cláudio de Guerra entrar em ação e ask her out (o narrador esta dado a estrangeirismos hoje). Ela que estava meio cansada de haging out********* com o mesmo estereótipo decidiu aceitar.

Fato é que eles saíram depois do trabalho para um café. Como narrador imparcial que sou eu vós digo, caros leitores, que eles combinavam. De uma licitação que só podia dar merda sairá*********** um relacionamento de longa-duração (que pode ser visto como uma 'cagada substancial' ou uma salvação para duas vidas medíocres).

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* Aquele que obra, do verbo obrar. NA.

**Como qualquer homem em sã consciência faria. nota universal.

*** Quando digo pijama sexy imagino uma lingerie preta. NA.

****Nota-se um descuido do autor e/ou do narrador, afinal ele falou que o pijama era sexy não a garota, talvez na cabeça dele isto tenha ficado subentendido. NE.

***** Aparentemente pêlo e pélo (do verbo pelar) perderam os acentos com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, assim sendo distingue-se apenas pelo contexto. NT.

****** very healthy - pseudônimo de Vera Rolf - ex campeã olímpica em salto com vara modalidade vegetariana. NT.

******* Outro descuido do autor ao supor que toda mulher bonita e que dispende muito tempo cuidando da sua beleza tende a não ser uma pessoa de verdade, aqui teríamos que discutir a concepção de pessoa e questões metafísicas. Consideremos (por motivos de saco cheio) que o autor errou. NE.

******** Ver música "Será" da banda Legião Urbana. NA.

********* ask her out - convidá-la para sair (no contexto). haging out - eufemismo para 'dar'. NT.

********** Nota-se que ao longo do texto o autor/narrador comete diversos 'erros' em relação ao tempo verbal, perde-se a sequencia lógica ao confundir o pretérito perfeito com o imperfeito e até com o presente, por isso ate hoje ele não escreveu nenhum livro. Por hora deixemos tudo no passado. NE.

************ É bom que vocês leiam estes asteriscos todos, porque me deu muito trabalho coloca-los em ordem e boa parte das piadas ( O LÚDICO) do texto esta aqui, módafôcas! NA.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Salsicha enlatada

Eles eram um grupo de jovens da Igreja Luterana em viagem pelo Brasil. Na verdade, formavam um coral de música gospel, e por isso estavam na cidade – uma porção de apresentações aqui e ali.

Tudo muito corriqueiro não fosse o detalhe de serem norte-americanos.

Fala aqui, convida ali, cobra um favorzinho de lá, e puft: os americanos visitariam a nossa universidade. Mais especificamente, a nossa turma de Língua Inglesa é que seria a agraciada.

Tudo didaticamente orientado, claro, pela professora; seria uma aula interativa para que treinássemos conversação com os nativos e coisa e tal.

O primeiro nó veio aí: nativos. Até hoje só ouvi essa palavra com um velado tom pejorativo. Os índios brasileiros são nativos, alguma cultura tribal africana é feita por nativos, aqueles povos sem-fim da Melanésia são nativos .

Mas os yankees, eles, logo eles, são em algum ponto nativos? Enfim, o primeiro de outros nós antropológicos.

O segundo nó, não meu, veio com a fantasia em cima de nossos vizinhos distantes. As garotas suspiraram em imaginações que iam longe. Devaneios sobre a harmonia e beleza nórdica.

Seriam do tipo Zac Efron para os moderninhos, ou à la George Clooney para os clássicos – para redimir eventuais suspeitas sobre minhas preferências, cito que precisei pesquisar como se escreve Zac Efron já que não fazia parte do meu universo simbólico-cognitivo.

Quando os americanos chegaram, as garotas notaram, desapontadas, que são gente como a gente. Não fosse o idioma, passariam despercebidos na fila do supermercado.

Mas o terceiro nó, o grande, dado notavelmente em mim, foi durante a dita conversação com o nativo. A dinâmica era em pequenos grupos; um americano por grupo, fazendo perguntas diretas para os alunos. Em inglês, obviamente.

Lá pelas tantas, ele me pergunta meu estilo musical preferido. Eu, tirando da ponta da língua, digo cheio de mim que adoro o rock dos anos 60. O nativo norte-americano exclamou animado – Oh, yeah! – e disse adorar também o rock dos anos 60.

Em segundos veio o clique. E fiquei deprimido. Céus, como sou colonizado! Quando falei do rock dos anos 60, a comunicação teve completo sucesso sem que eu precisasse dizer qual era o rock da década de 60. Estava dado que só existia um, e o yankee entendeu ser o seu rock dos anos 60.

Foi, de fato, como se só existisse um rock-dos-anos-60: o estadunidense. Pior: na minha cabeça uma potencial distinção nem sequer chegou a insinuar-se. Na minha cabeça, quando disse o que disse, o rock anos 60 era um só, e em completa sintonia com a cabeça do norte-americano. Sinonímia de aculturado.

O fato de eu ser brasileiro, e cá ter tido um rock na década de 60, passou longe de ter qualquer relevância quando eu disse gostar do rock anos 60.

Não sou do tipo purista que propala neuróticas acusações contra as misturas e influências culturais, porém, fiquei com um incômodo eco.

Colonizado, dito bem baixinho, suave, mas grafado em itálico, repetido na consciência.

Ou, como diria minha professora de Português: "Não se iluda! Você é uma salsicha enlatada!"

O sentido da frase é confuso, polissêmico, cheio da verve marxista da dita professora, mas sinto que deve aplicar-se a esse caso.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A bolha e o visco

Quando fiquei sabendo daquele ataque a alguns jovens na Avenida Paulista, algo com prováveis motivações homofóbicas, fiquei pensando na coisa toda, principalmente nessa aversão dos héteros contra os homos.

E o mais próximo que cheguei de uma conclusão, com certa ironia, foi de que todo hétero conta, lá no fundo, receber uma cantada dos homos. Não apenas uma cantada; dão como evidente que se o outro é homo, ele certamente, necessariamente, e inevitavelmente, irá cair matando com indiretas, olhares e xavecos em cima de todo hétero.

E o perverso da história é que quem cai matando, agora literalmente, são alguns héteros, com lâmpadas e pontapés.

Mais: se o homo eventualmente deixar claro que não tem interesse nenhum, o hétero vai ficar algum tanto ressentido pela expectativa frustrada!

Generalizações são complicadas, como sempre, mas creio que isso tem certa validade genérica.

Parece ser algo ensinado – escola? família? -, não sei. Mas o teste para tirar a prova é simples. Pergunte a um homem hétero o que ele acha de ter amigos gays. 'Ah, nada contra, desde que não venha com viadagem pro meu lado!'. Bingo. É um pressuposto que, sendo você hétero, e sendo o outro homo, potencialmente, quase naturalmente, ele vai 'ir de viadagem' para seu lado.

Nós héteros, com maior ou menor vergonha, já demos essa resposta um dia.

Vaidade masculina ou uma paranoia institucionalizada?

Lendo sobre o tal ataque aos jovens na Avenida Paulista percebi que podemos até nos revoltar. Aliás, a indignação nessas horas deve vir. Porém, não dá para dizer coisas do tipo nossa, que estranho isso acontecer. Ou então defender a tese de que é inexplicável esse tipo de violência, quase caída dum céu nebuloso.

É algo excessivamente comum, previsível e explicável.

Não tanto pelos motivos – que por serem culturais não são menos fugidios -, mas sim pelos sintomas. Eles se manifestam no dia a dia, sutis ou não. Bomba relógio prestes a explodir. E parece que a lógica dessa violência tem a ver com uma ideia de pureza particularmente desenvolvida na cabeça de alguns homens.

Sim, pois o que alguns héteros cultivam, ainda, é um ideal de pureza. Ele é do tipo de uma bolha de ar num raio de alguns metros em torno desse homem, e a pureza neste espaço tem de ser mantida. Caso não seja, tem-se um problema.

Trata-se de uma pureza heterossexual. O límpido e translúcido é formado por tudo aquilo que representa, ou contém, a dobradinha homem + mulher. É o puro. Mas tudo que igualmente possa representar ou conter a dobradinha homem + homem é simplesmente sujo, repugnante. Talvez viscoso.

E digo viscoso não a toa. É um termo completo neste caso. Simboliza o que é incerto, fluido, pegajoso, aquilo que uma vez que se entre em contato com, não se sabe se esse contato será interrompido.

E se o treco grudar de vez?

Acho ser uma boa metáfora para explicar a desconfiança violenta de alguns héteros contra os homos. Que nada viscoso ultrapasse a barreira de segurança...

Meu professor faria graça e diria, sei não, tem cheiro de desejo mal resolvido.

Se tem, não sei. Só sei que poucas são as violências que se justificam. E a do tipo homofóbica certamente não é uma delas.

Se os rótulos em si já tem um quê de estúpidos, agredir por conta deles é o que?

sábado, 13 de novembro de 2010

As Ciências Sociais ( me formei \0/ ... e agora? o_0 )



4 anos e meio depois do fatídico rito de passagem do vestibular, eu me formei em ciências sociais! Não, isso não faz de mim um socialista (apesar de assim eu me definir política-ideologicamente) mas sim um cientista social, ou um sociólogo, como queiram. “Que legal, o quê que você faz?” No momento desempregado, e sim, provavelmente em algum momento da vida eu terei que dar aulas, mas agora já estou até gostando da idéia. Pois bem, a idéia deste texto não era falar das coisas práticas da conclusão de um curso de graduação, mas sim de alguns momentos pelos quais passei e coisas que eu senti (afinal isto ainda é um blog).

Em primeiro lugar, não importa o quanto te avisem que é um curso extremamente teórico e que exige muita leitura, você nunca está suficientemente preparado! Chegou em determinados momentos a ter cerca de 200 páginas de leitura por semana, e não era aquela leitura agradável do tipo Fernando Sabino, Arthur Conan Doyle ou Jonathan Swift, mas leituras complexas, e mais, fichamentos, trabalhos, participação em sala (blergh), seminários...A monografia então foi pior, sim foi pior do que todos dizem que é! O pior ainda porque quando eu estava escrevendo-a estava trabalhando, num desses empregos normais de 8 horas por dia e salário de fome no fim do mês, e tinha aula a noite, e monografia de madrugada.

Pois bem, sobrevivemos! Olhando em retrospecto há quem diga (né César) que eu tive mais sorte do que juízo, porque neste jeito manso de ser muitas vezes levei as coisas com a barriga e mesmo assim tirei ótimas notas, das duas uma, ou eu tinha uma grande imaginação sociológica ou boa parte das matérias e professores eram picaretas (prefiro acreditar na segunda opção).

Agora o que realmente nos atormente neste curso, o que nos desmotiva e impede de lutar a boa batalha são a dúvidas existenciais que ele te apresenta, e que você invariavelmente interioriza. Não sei se é possível descrever o que é cansaço mental, mas é algo que, diferente do cansaço físico, não passa após uma boa noite de sono. Alias, muitas vezes perdemos o sono nos debruçando sobre as questões mais variadas, repensando conceitos que tínhamos como certo tentando achar uma solução, definir a teoria mais plausível para acreditar. Afinal o nosso instrumento de trabalho são as palavras, e há autores que usam as mesma palavras para dizer coisas diametralmente opostas e não há como apenas aprender sem definir acreditar em uma ou outra.

Eu gostava de ficar olhando pela janela do nono andar (ou do sexto mesmo) da reitoria, da UFPR ver as pessoas pequenas lá embaixo e ficar conjecturando alguma teoria que fizesse sentido que desse conta de explicar a religião, a ciência, o amor, a paixão, o ódio, a evolução (não me surpreende que as pessoas me considerem tão confuso, dado meuinconstante estado mental). É difícil ser cristão/protestante (evangélico, para alguns) militante e entrar num curso desses, é estranho ter que questionar o tempo inteiro sua fé, suas tradições, seus ritos, e olhá-lo como mais um rito.

Mas nem tudo foi tão nebuloso assim, afinal foi nesse tempo que conheci, pessoas incríveis (certo Carlos, Aline, César, Taute) com que fiz amizade, alias dois deles até toparam fazer um blog comigo e de repente desapareceram dele. Infelizmente, ou felizmente pra eles, apenas o César concluiu o curso também, alias me dando muita força (no sentido da praxis - trabalhos, provas, seminários) pra continuar.

Enfim, é realmente estranho estar formado, a gente fica com uma sensação que não aprendeu nada, mas no fim tenho pra mim que a coisa mais importante que aprendi nesse curso é conferir o mesmo status a todo o tipo de discurso. É muito bom desconstruir a legitimidade da ciência (até mesmo das ciências sociais) como discurso hegemônico capaz de explicar tudo e todos, e perceber que cada pessoa constrói uma visão de mundo única e tão capaz de explicar sua realidade quanto um tratado de milhares de páginas que nunca será aberto. É interessante ser capaz de entender razões econômicas, egoístas que perpassam todo o tipo de acontecimento. E muito mais desafiador é procurar algo que seja feito com alma (mesmo que essa seja uma construção de um discurso moderno ocidental e individualista) no meio de tudo isto.

Por fim durante a colação de grau fizemos o juramento de nos importarmos sempre em nosso trabalho com a questão social, e realmente acredito que nada no mundo faz sentido se não nos importarmos com os outros antes de pensarmos em nós. Afinal a própria Biblia afirma, ironicamente no livro de Tiago (1:27), "Para Deus, o Pai, a religião pura e verdadeira é esta: ajudar os orfãos e as viúvas em suas aflições e não se manchar com as coisas más deste mundo".


Amém...

terça-feira, 22 de junho de 2010

o Funk e o Funk

Alguns dos leitores deste bom e velho blog subversivo e comunista bem sabem que meu sonho, e o que faço a maior parte do tempo é tocar guitarra. Isso dado, há uma série de implicações, por exemplo, leio diversas revistas de guitarra. Relendo uma edição ultrapassadérrima de março de 2007 de uma das grandes publicações nacionais de guitarra vejo uma interessante reportagem sobre o funk. Sim, aquele funk de James Brown (Deus o tenha).

No fim da reportagem há uma critica duríssima à comparação existente entre o funk carioca e o funk ‘original’ de James Brown (até rima)! Pois bem, o escritor desta reportagem literalmente “desce o sarrafo” no ‘funk’ carioca, ou ao menos no fato de chamar o funk do morro de funk, assim como seu antecessor rico. Argumenta o rapaz, que isso é uma afronta ao estilo original por dois motivos principais: as letras pobres, e a música (harmonia, melodia) pobre.
Após ler isto me pus a pensar naquela música da James Brown:

“Get up, (get on up)
Get up, (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine, (get on up)”

O leitor deve concordar comigo que não há nada de muito construtivo/ profundo/ subjetivo/ introspectivo nessa música. Ao contrario, o objetivo é claro, fazer o ouvinte se chacoalhar (se é que ainda existe esta palavra) e a letra é obviamente de uma conotação sexual. Não vejo problema nisso. Alias como sociólogo (ou antropólogo) vejo estas manifestações culturais como um fato que tem um objetivo e uma causa. James Brown e toda a industria por trás dele, bem como os seus antecessores que lhe influenciaram, conseguiram chegar onde chegaram pois havia uma demanda por este tipo de música, havia espaço. Também se olharmos a musica pelo seu viés técnico não veremos nada de difícil ou complexo em sua construção: poucos acordes que se repetem por toda a canção, e um ritmo marcante.

Agora voltemos ao morro. Pelo que me lembro o funk era criticado por não ter uma música complexa e por suas letras de conotação sexual. No que ele difere mesmo do seu primo rico? Porque insistimos em louvar uma manifestação cultural estrangeira, bem localizada no ‘main-stream’ da indústria musical que tem por característica as mesmas marcas do estilo mais demonizado pelos ‘intelectuais’ do Brasil?

Algum tempo atrás li uma frase de um famoso produtor musical e ótimo guitarrista de jazz que afirmava ter criticado por muito tempo as musicas ditas ‘do povão’, mas com o tempo percebeu que se shows deste estilo conseguem levar mais de cem mil pessoas a um estádio é porque há algo ali que agrada outros seres humanos.

Se de fato o objetivo dos bailes funks é o sexo, as músicas de James Brown parecem funcionar na mesma lógica (não é a toa que volte-e-meia as festas de casamento tocam músicas como esta em questão e ‘YMCA’ do Village People).

Volto a indagar então o por quê do preconceito? Não digo que devemos admirar, chegar em casa e escutar este tipo de música, afinal cada um ouve o que gosta (ou o que a sociedade te fez gostar - só pra provocar um pouquinho os que se acham indivíduos descolados de um contexto sócio-cultural-) mas afirmo que este tipo de critica já é pessimamente construída é mostra o quanto prezamos por tudo o que é importado, pasteurizado e dado como bom pelas grandes meios de comunicação.

Em defesa do autor, ele afirma que de fato há vários músicos de qualidade que saíram da favela e de morros e cita alguns, ironicamente estes citados são pessoas que foram absorvidas pela industria musical brasileira. Mas ele falha de modo decisivo ao não perceber que há um contingente imenso da população que tem nesses funks elementos constitutivos do seu dia-a-dia, e que as musicas ou os bailes de fato transmitem alguma coisa para elas (nem que seja esperma – brincadeira, perco a linha de raciocínio mas não perco a piada). Seu caráter independente e tecnicamente tosco serve apenas para mostrar a o quão heróico e socialmente necessário e o funk, afinal ele não precisou ser produzido em estúdios caríssimos nem pasteurizado pelas mixagem que igualam todas as musicas para se tornar um sucesso.

E se o nome pegou é por que semelhança há. Faço minhas as palavras deMichael Moore ao presidente Bush, para o autor desta reportagem “Shame on you F.S., shame on you”.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Apontamentos antropológicos: o agroboy

Pelas contingências da vida - e certamente por algo relacionado às periódicas visitas a meus pais numa cidade interioranamente bucólica - acabei tendo várias oportunidades para observar antropologicamente uma complexa, dinâmica e complicada figura cultural chamada agroboy.

Bem, e o que é o agroboy? Para quem não está familiarizado com o cenário de pastos no horizonte, carroças que cruzam a cidade puxadas com força animal e quero-queros audíveis no fim de uma tarde, digamos que se o playboy é o filhinho de um papai médico, advogado ou empresário, o agroboy é o filhinho de um papai agricultor muito bem sucedido. Aqui pros lados do Norte do Paraná, ele é a típica prole da terra vermelha com a soja.

O agroboy é aquele sujeito que não quer o carrinho arredondado europeu, quer a camionete barulhenta das pradarias norte-americanas – é, bem aquela que corre ao lado de cavalos selvagens. Não se veste como a juventude utópica das novelas da Globo, mas sim como um cowboy saído diretamente de algum saloon que não existe senão enquanto representação de uma vontade coletiva; o agroboy usa as calças apertadas feito embalagem de café, cinto com uma fivela do tamanho da tampa de margarina, e suas camisas sempre deixam à mostra o peito – com ou sem cabelo... vale notar essa variável.

(Alias, procurando uma foto para este texto, descobri que o agroboy já esta sendo incorporado como um 'novo movimento cultural mundial'. Acredite se puder.)

A verdade é, e realidade foi, que fiquei arrependido por um ingresso já pago para um tal de Batidão Universitário – as vezes o bom senso da gente sofre umas recaídas e nos mete em cada situação... – e só por isso saiu a analise aqui transcrita. Como uma luz no fim do túnel, as capengas aulas de antropologia ofereceram um alento contra meu desespero. E tudo se encaixava para isso uma vez que o estranhamento - visual, auditivo e social - foi completo durante o tal do Batidão, e pude então ver o agroboy e logo em seu habitat social típico: uma festa de música sertaneja regada a álcool.

Mas, oras bolas, de onde surgiu o agroboy? E essa bizonhice – com o perdão da subjetividade exposta – chamada Batidão Universitário?

A cultura enquanto um quadro amplo nos lembra a máxima de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma. Assim, o agroboy é como o ponto intermediário da passagem do mundo rural ao mundo urbano. Ele incorpora as novidades mas sem abrir mão de certos resíduos e reminiscências. Ele é o mix pós-moderno da cultura de massas, consumismo, ensino superior, urbanidade e agropecuária. Cultura é mesmo um treco multiforme - ou seria, nesse caso, disforme?.

(Para quem se perguntou por que do Universitário, vale lembrar que tudo que carrega essa palavra passa as ser extremamente legítimo. Forró, funk, sertanejo ou sabe-se-la-mais-o-que, são coisas aceitas desde que venham com o universitário como adjetivo condicionante, e sem ele, seriam coisas bregas, toscas, sem noção, etecétara e tal)

Olhando para o agroboy como essa figura mixada, entendemos também o Batidão Universitário posto que o segundo só existe por causa do primeiro – enquanto origem e enquanto destino da demanda satisfeita – e também é um mix surreal. Pois no Batidão – aquelas longas, tortuosas, lentas e sofridas 4 horas de trabalho de campo – a viola e a cerveja se fundem com as batidas eletrônicas e o ecstasy. É a mistura (in)sensata de duas vontades: a de não largar o osso da tradição do campo, mas incorporando o que é moda na cidade. Em miúdos: mistura de música sertaneja intercalada com batidas eletrônicas – sim, isso existe, e gera a curiosa figura de um comboy que escarra no chão displicentemente e, em seguida, está se requebrando todo num tunts-tunts­ frenético, fazendo parte inclusive daquela multidão enchapelada que compartilha de um frisson quase ritualístico.

Enfim... depois de tão pífia análise, encerro o tormento do leitor com a lembrança do texto em que o Thiago certa vez aqui postou discutindo para que servia Ciências Sociais e concluindo serem elas um belo hobby.

Eu assino embaixo e emendo: hobby principalmente para situações adversas como um evento suspeitíssimo chamado Batidão Universitário tomado por agroboys.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Luís e a Vida Positiva


Luis acordou cedo e bem disposto, na noite anterior havia decidido a não deixar mais nada lhe aborrecer, e que evitaria ficar bravo ou com raiva. Ele havia visto num programa de televisão as benesses que uma vida ‘positiva’ poderia lhe trazer, assim pesquisou na grande rede e freqüentou um ciclo de palestras duma instituição cujo emblema e o nome misturava filosofia, misticismo e biologia. Na noite anterior ele havia se formado num simpósio de dez semanas, com certificado e tudo, assinado por um parapsicólogo.

Preparou seu café, evitou colocar o açúcar, também havia aprendido como a alimentação saudável pode mudar o movimento do cosmos e fazer a manutenção da vida ‘positiva’. Comeu uma broa integral com queijo branco, qualquer pessoa em sã consciência acharia aquilo horrível, ele adorou. Fez a barba e se perfumou, sabia o quanto a boa apresentação é positiva para a percepção que as pessoas fazem de si. Tomou o ônibus um pouco mais cedo do que o de costume.

Logo que entrou no ônibus, teve sua primeira prova de paciência, o ônibus estava lotado. Respirou fundo, e fez como lhe ensinaram, pensou em um lugar bonito, voltou a concepção holística do universo entendeu todos os presentes ali como seus irmãos, procurou se colocar numa situação de empatia, e entender que todos ali tinham suas preocupações, e que se estavam ali provavelmente havia algo que os unia. Uma convergência de contextos, que gerou uma conjectura própria, com suas regras específicas e ele aceitava o papel de ser um cavaleiro numa cruzada para impor os princípios de respeito e amor naquele local. Assim, foi entrando no ônibus, pedindo licença e tentando ser o mais educado possível. Apesar de seus esforços só conseguia com que as pessoas bufassem quando ocorriam encontrões. Aos trancos e barrancos chegou até a cobradora. Como um bom representante da ‘filosofia da vida positiva’ havia deixado o dinheiro separado, em moedas, para facilitar o troco. Exatamente no momento em que pegou as moedas nas mãos o ônibus freou bruscamente, as moedas espalharam-se por todo o ônibus, pisoteadas por todos. Não havia a menor possibilidade de sequer pensar em junta-las. Uma raiva lhe subiu, mas ele conseguiu se controlar e evitou o xingão que estava prestes a bradar.

Respirou fundo, pensou em um lugar bonito, pegou a carteira. Deu bom dia a cobradora, ela olhou-o com desprezou e balbuciou qualquer coisa, o que só o fez aumentar a raiva. Só tinha uma nota de 50 reais na carteira, deu-a para a cobradora, ela retornou 20 reais de troco, ele ficou esperando o restante, ela apontou para a plaquinha na janela que dizia “Troco Máximo 20 reais”. Ou seja, pagou trinta reais numa viagem de 30 minutos. Pensou em reclamar, mas sabia que aquilo não cabia a quem queria levar uma vida positiva. Pagou, pensou em um lugar bonito, o número de arvores deste lugar diminuía em seus pensamentos, e os animais do lugar estavam ficando de mau humor também.

Entrou mais adentro no ônibus, as pessoas bufavam, mas não havia como passar sem empurrar, além do que todos o olhavam com desprezo por ter pago trinta reais na viagem. De repente ouve-se um barulho na parte da frente do ônibus, parecia que uma pessoa havia caído. Logo chegou a noticia, uma senhora velhinha tropeçou em uma série de moedas de cinco centavos, que um engomadinho havia derrubado! Todos a sua volta o olharam feio. Um deles perguntou “Pra que tanta moeda cara? Você ta loco?”. Luis corou. Tentou pensar num lugar bonito, mas sua floresta florida estava tornando-se um cerrado...

Pouco depois uma outra senhora apertou a campainha para descer muito perto do ponto e o motorista deu outra freada brusca. Acontece que a senhora não conseguiu se segurar nas barras, e para não cair segurou o Luís, tão forte que ele sentiu carne ser arrancada pelos seus arranhões. Todos em volta deram sorrisos de satisfação, parecia alguma forma de vingança pela velha do parágrafo anterior. Tentou pensar em um lugar bonito, mas a única coisa que vinha a sua cabeça era um descampado.

Desceu em seu ponto, suas costas doíam e incomodavam. Uma pessoa na rua lhe falou que sua camisa estava suja de sangue. Ele olhou no vidro de uma loja, de fato estava. O pior é que ele tinha uma reunião importantíssima no primeiro horário. Correu para tentar comprar uma camisa em uma loja, comprou e fez um curativo rápido, assim que saiu da loja e foi atravessar a rua um carro passou por uma poça e expirrou lama nele. Ele estava na quadra do trabalho, e cerca de trinta minutos atrasado para a reunião com os maiores acionistas da empresa. Decidiu entrar.

Estava tão sujo (naquele ponto o curativo das costas já havia rasgado) que o segurança não o reconheceu e tentou impedi-lo de entrar, ele não tinha tempo de explicar, e era o único com treinamento em English Bussines Aplication, portanto o único que poderia dirigir a reunião,entrou correndo. O segurança foi atrás, mesmo assim chegou no elevador antes dele.

Chegou em seu andar, e entrou correndo na seção, todos olhavam aquilo assustados, ninguém o reconheceu, nem mesmo as menininhas que tentavam seduzi-lo para subir na empresa. Entrou na sala de reuniões dizendo para si mesmo “pense num lugar bonito, pense num lugar bonito...”. Mesmo assim, só pensava no caos, na fumaça na lotação, na ausência da paz, barulhos corriam em sua cabeça, e flashes de luzes.

Seu chefe o reconheceu, mandou-o se acalmar, disse que não era necessário entrar na sala, pois o funcionário novo já estava fazendo a ponte e dirigindo a reunião, disse para ele não se preocupar e tentar ver o lado “positivo” de tudo aquilo.

Tentou pensar em um lugar bonito, só viu a imagem da explosão nuclear em sua cabeça, quando viu sua boca abriu automaticamente e gritou “positivo o c***!” derrubou seu chefe com uma bordoada (ele foi quem foi com ele para as reuniões da filosofia da vida positiva) e estava encima do funcionário novo (também adepto) enchendo-o de porrada. O segurança chegou e tentou para-lo, Luis jogou-o por cima dos ombros, e começou a gritar a bater contra o próprio peito, numa cena digna de King Kong.

A policia foi acionada, e como era uma empresa rica, chegou rápido. Levaram Luis que estava em estado catatônico num canto após ter posto em nocaute o diretor, o funcionário novo, a equipe de sete acionistas da empresa e mais alguns curiosos.

A polícia fez algumas perguntas ao pessoal, todos diziam que foram coisas horríveis que aconteceram, a volta à barbárie, uma encenação dos instintos mais primitivos, assustadores e prazerosos (uma mulher disse isso) do ser humano. O pobre Luis foi encaminhado a um Centro de Recuperação PsicoTerapeuticoAntropoSocial, e logo morreu de desgosto. Ele foi para um lugar bonito.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Seria uma piada?

Precisei de uma identidade nova – a de papel e plastico, não a moral e metafísica. E o que já prometia ser minimamente demorado – a fila no Instituto de Identificação do Paraná ia bem longa – conseguiu demorar ainda mais, pois um funcionário veio dar a terrível noticía: o sistema caiu.

O “sistema”, ou então o grande Sistema. Seja com letra maíscula ou com as aspas neuróticas, ele tinha caído e ia atrasar a coisa toda. Sentado na cadeira de espera, suspirei e fiquei a olhar o povo a minha volta. Foi curioso que depois que o tal funcionário deu o aviso, todos os outros foram até ele. Reunião de última hora para solucionar o problema do Sistema? Que nada. Começaram a ter uma conversa muito da animada, tão animada que logo tudo era risos e dancinhas festivas. Deviam estar rolando uma piada muito boa.

- Aí ele perguntou pra mim, ”Ah, então vai ser rapidinho,né?”. Hahahaha, rapidinho! Hahaha.

Já que todos os atendentes, dos 8 guichês, riam horrores, deve ter sido mais ou menos isso.

Mas se eu estava lá, só estava por causa de outra piada: a primeira semana de aulas da UFPR. Essa piada, aliás, que a gente cansa de tomar conhecimento todo início de semestre, mas sempre acaba indo, acordando cedo, se apressando todo para não chegar atrasado e causar uma má impressão ao professor; em suma, faz tudo que um veterano sabe que não precisa fazer.

É sempre uma piada que ninguém entende direito. Eu pelo menos não entendo nada e tô sempre lá só pra perceber que nem aluno nem professor vão dar as caras. Assim como não entendi aquela rodinha dos funcionários do Instituto de Identificação tão animada. E por não entender a gente acaba ficando - como dizem no interior - de varde.

Sei lá, vai ver o Carlos e o Thiago, agora também funcionários públicos, metidos nas engrenagens institucionais, sovados pela máquina burocratica, rodados nas rotinas dum servidor, entendam essas piadas. Talvez também riam com elas enquanto os outros ficam lá, sentados, com compromissos desmarcados, com um tempo que não depende mais deles, ficando cada vez mais rabugentos, cada vez mais cegos diante de algumas limitações reais que não dependem de modo algum da boa vontade do funcionário público risonho em questão - justamente por que ele é todo risonho.

Diante disso tudo uns se emputessem com direito e legitimidade, e outros só por puro tédio – como eu timidamente assumo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Assim é uma cidade do interior

Já antecipo o pedido de desculpas pelo texto; mesmo estando uma semana de molho na casa dos pais, coçando a barriga para não coçar outra coisa, escrever pode ser algo torturoso. E neste caso, resultado das pressões editoriais(leia-se, o Carlos estava me cobrando), não podia dar coisa muito boa. Mas vá lá, é quase verão, quase fim de ano, e o Brasil é quase um quase-bom país. Então dá para agüentar certas coisas. Imagino que cada um pode escrever melhor do que entende, vive e sente; sendo assim, lá vai - é tempo para um segundo pedido de desculpas, desta vez por tamanha subjetividade.

Enquanto escrevo isso, o sol ali fora doura a vizinhança: as casas vizinhas, os caras que pintam o muro, as árvores grandes, a rua estreita. O vento é fresco e traz o canto dos passarinhos – uns pardais amarronzados e uns mais coloridos que faço a mínima idéia do que sejam; volta e meia as crianças passam correndo de bicicleta rindo, e depois passa um sorveteiro e sua buzina clássica que o anuncia. Mais cedo passou o verdureiro com a carroça puxada por um cavalo, sovado e cansado, e mais tarde, caindo a noite, passará uma legião de velhos caminhando para a igreja que fica umas ruas adiante. E assim a cidade do interior cruza o dia.

Mais tarde também, antes de anoitecer, é hora de ir no parque; depois da seis, do fim do expediente as pessoas saem dos seus trabalhos e vão bater perna na pista que circunscreve o lago do parque municipal. As crianças vão de motoca – sim, isso ainda existe -, os adolescentes com perfume – sempre é hora de
paquerar por aqui – e os adultos com roupas de exercício mas que escondam as barrigas de cerveja e carne – que se repete todo final de semana, só muda a casa do ‘compadre’. E se não é o parque, são as ruas comuns mesmo; com o final da tarde os alunos das escolas passeiam para lá e para cá tomando sorvete e atualizando as fofocas.

Aí todo dia é dia de feira. As melhores são as de terça e sexta-feira. São aquelas que aparecem mais feirantes e mais pessoas; no início da feira, que começa pelas cinco da tarde, vão as pessoas que querem comprar legumes, frutas e verduras; também tem café moído na hora, pão caseiro de todo tipo e tanto tipo de farinha que é preciso de um intérprete para saber qual é qual. Aí, quando a noite vem caindo, a feira é tomada pelos mais novos; comem coxinhas, pastéis, tapiocas, espetinhos de carne e de queijo, bebem sucos naturais, garapa – com abacaxi, limão ou pura, vai do gosto -, matam o tempo até ficar tarde demais e as barracas começarem então a se fechar. E assim se diverte a cidade do interior.

Na ruas as pessoas encaram, olham, cumprimentam. Quem chega de fora é notado e estranha tamanha invasão ocular – deve ter nome melhor para as insistentes olhadas, mas fiquemos com invasão ocular que até sofistica esse texto simplório. Na feira, no parque e na igreja – o que resume bem a vida social curta, mas nem por isso simples, da cidade do interior -, todo mundo já nota quem é daqui e quem é de fora, pois quem é de fora ta sempre fingindo que não conhece ninguém e que não existe situação própria para soltar um ‘boa tarde!’ senão em uma situação formal. Velhos ou jovens, as pessoas realmente cumprimentam; basta fazer o mesmo trajeto, cruzar nem que seja a mesma esquina ou caminhar na mesma hora, e vai estar aí uma situação boa para um cumprimento cordial. E é assim que as pessoas funcionam no interior.

É um universo peculiar, único, que cada cidadezinha do interior do Paraná apresenta e é. Nada resume, nem quando falamos com respeito e menos ainda quando se fala com desprezo. Cidades do interior são o que são, e, ah, são muito! Aí chega um pseudo-curitibano e pseudo-cientista social tirando uns dias de folga, caindo sem pára-quedas numa cidade assim – ‘a modo’ de visitar seus pais, diriam os nativos daqui -, e fica todo bobo. Mas a bobice é perdoada; por mais que seja bom estar numa cidade grande que corra independente de você, indiferente a você, e livre de você, acordar e ver que o horizonte não é tomado por prédios é uma coisa que dá um conforto; sabe-se que andando uns poucos quilômetros tanto ao norte, ao sul, a leste ou a oeste, a cidade acaba, os rostos se repetem, e a vida parece um pouco, um pouquinho só mas já o suficiente, mais colorida do que nas grandes capitais.

O vento cessou um pouco, os caras que pintavam o portão deram um tempo; o sol ta muito forte. As crianças do vizinho agora se reúnem embaixo de uma árvore, e do outro lado da rua a babá cuida de uma menininha de no máximo 4 anos que brinca com uma boneca. O sorveteiro vem voltando, ao longe já da pra escutar novamente a buzina; os pardais fazem a festa no monte de areia que ta posto na construção inacabada ali na esquina, e também é possível escutar uns quero-queros que voam por perto. Mais ao longe, quase que raramente, escuto uma moto que cruza a cidade; estando só a 5 minutos do centro, parece até que aqui não há carro. Ah, assim é uma cidade do interior.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Outras breves questões acerca do mundo laboratório

Homenagens rendidas por temas baratos

Em nossa última publicação – Algumas Breves Considerações Acerca do Mundo Laborativo –, o Thiago arranhou o ponto fundamental da mais alta antropologia já produzida, que procuramos retomar neste precioso texto que vos prende a atenção: aquilo que diferencia os homens. Segue o excerto que conclui o artigo anterior:

“Creio que a maioria se misturaria com as pessoas, usaria seu incrivel
instrumental político para ascender na carreira, daria mostras de sua
inteligencia e potencial, mas eu, tímido, sem muita afeição pelos seres humanos,
que nunca gostei de política, e preferi estudar a sociologia interacionista,
fico lá tirando xerox, carimbando papel, e analisando as relações sociais,
tranformando quatro anos de faculdade de ciências sociais em um belo
passatempo...”
Primeiramente, cabe lembrar que a tradição antropológica bestruturalista já respondeu em parte à questão fundamental: apenas os grupos humanos são capazes de produzir cultura. Se essa cultura nasce dum biguebengue epistemológico ou se ela se deu gradativamente, dos primatas aos promíscuos, cabe aos neurocientistas do Fantástico responderem. O fato, porém, é que a partir dessa produção é que o ser humano se torna ser humano. É o que o diferencia como tal.

Em segundo lugar, é superficial considerar o homem cultural como um produto antropológico acabado. O circo é nômade por excelência. Faz-se necessário questionarmos que homem é esse; que cultura é essa; que conhecimentos e valores são esses. Se não podemos considerar mais ou menos complexos e evoluídos um grupo em detrimento de outro, a razão quantitativo-visual promove uma reflexão que reside entre a curiosidade mórbida e o interesse empático.

Que diferenças são essas? – insistimos. Proponho que respondamos pelo excerto retirado do texto do Thiago, a quem não chamo pelo sobrenome de Elias, para evitar ambigüidades. Seguindo no trem azul, depreende-se do trecho extraído que há sobretudo duas esferas que permeiam as posturas que se pode assumir em comunidade: uma político-cênica, evidenciada pelo ser de contatos ou relações que protagoniza sua sociabilidade ao nível da linguagem interpessoal; e uma psicológico-sinestésica, caracterizada pela interiorização do ser, pelos monólogos ou diálogos silenciosos, pelo nível da consciência.

Eis o que diferencia manifestações culturais em termos subjetivos. Trata-se de fenômenos psicológicos, social e culturalmente determinados, cuja motivação subsidia as reflexões acima propostas [que homem é esse; que cultura é essa].

Não é difícil identificar, aliás, em que lado desta dicotomia nos filiamos. Observemos o Thiago, novamente. A postura de espectador perante o mundo adulto-sério é complementada compreensivelmente por participação ativa nas esferas que exigem essa profundidade subjetiva: escrita, música, religião...

Para complementar, a dicotomia fecha-se com o César, colaborador-alfa deste blogue. O César é um racionalista por natureza. Se o Thiago gosta de café preto, o César logo acrescentaria que o Thiago pensa que gosta. Isso não faz do César má pessoa; apenas o torna pouco afeito a visitas em ateliês, por exemplo. Aliás, sua afeição tão superficial à arte pode comprometer seu apreço por este texto.

Enfim, este trabalho antropológico de fôlego, qualitativamente inédito, não tem por objetivo central narrar a forma cativante como determinado grupo social casa, come, defeca, transa, sobe em árvores ou descasca abacaxis – mesmo porque etnografia urbana é deveras perigoso nas capitais. Ainda assim, esperamos que a contribuição que vos prende os olhos seja inscrita nos anais da mais alta produção artística a ser vendida em bancas e revistarias, em conformidade com a vocação antropológica.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Algumas Breves Considerações Acerca do Mundo Laborativo


Queridos e queridas leitores desse pequeno espaço subversivo online. Nem me arriscarei mais a pedir desculpas pela demora nas atualizações, haja visto que as únicas mensagens ciberneticas que os outros idealizadores desse blog (Ave Cesar e Carlos) são quanto a minha demora. Pois bem, atualizemo-nos então.


Tenho vinte e um anos completados no ano da Graça de 2009. Até então jamais havia trabalhado, sempre que conto isso logo emendo dizendo que fazia estágio na Universidade, o que não é mentira, mas é uma (com o perdão da expressão) puta cara-de-pau, já que o estágio era de 1 semestre (4 meses na UFPR) num jornal chapa branca, com a incrível carga horária de 4 horas SEMANAIS.


Decerto os leitores estão curiosos querendo saber o que eu fazia da vida até então. Não fazia muita coisa, a única coisa que me rendia algum pouco dinheiro, eram as aulas de violão e guitarra que eu ministrava à pessoas mas vagabundas que eu. Mesmo com tanto tempo ocioso, a matéria da faculdade (a leitura) nunca estava em dia, e eu me sentia extremamente fatigado.


Pois bem, passei em um concurso público para a prefeitura de uma cidade da região metropolitana de Curitiba. Cerca de 1 hora pra ir, mais 1 hora para voltar, e a Universidade a noite (alguns dias da semana, eu certamente morreria se tentasse uma grade completa a noite, essa atitude me rendeu meio semestre a mais na faculdade). Chegamos aqui ao ponto em foco desta noite:o mundo do trabalho.

Extremamente Estranho, excetuando o fato de todos execrarem a minha demora em dar estarte à vida laborativa, ainda tive de me adaptar a um tipo de relação social muito diferente das das instituições de ensino, e das famliares.


No "serviço" há um pressuposto de que todos se gostam, coisa que agora com mais de tres meses de trabalho já caiu por terra faz tempo. É o tipo de relação mais hipócrita que já conhecia, mais hipócrita até do que de algumas igrejas, todos dão bom dia e sorriem, e na primeira oportunidade (CREU) pegam o cargo do coleguinha.


Por mim tanto fede quanto caatinga, entrei lá apenas pelo dinheiro (sim, não podia mais dar uma de pseudo-comunista, sem falar que preciso da grana para comprar armas para a revolução armada) não pretendo seguir carreira por lá nem nada, aliás preferia vender instrumentos musicais. Mas é triste ver que em uma prefeitura com cerca de 2000 funcionários, já temos uma pequena amostra das corruptelas e desonestidades que vão se ampliando a medida que incha a máquina estatal.


E o que um sociólogo faz numa hora dessas?


Creio que a maioria se misturaria com as pessoas, usaria seu incrivel instrumental político para ascender na carreira, daria mostras de sua inteligencia e potencial, mas eu, tímido, sem muita afeição pelos seres humanos, que nunca gostei de política, e preferi estudar a sociologia interacionista, fico lá tirando xerox, carimbando papel, e analisando as relações sociais, tranformando quatro anos de faculdade de ciências sociais em um belo passatempo...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Crônica do xerox perdido

Para quem não teve a oportunidade de conhecer o xerox da Reitoria da UFPR, vai uma pequena descrição. Situado entre um estacionamento e o falecido Mercadorama da rua Amintas de Barros, é uma salinha para dentro de um paredão. Espaço pequeno e modesto, tem um balcão que divide o lado de quem pede as coisas do lado de quem atende pelas coisas pedidas, sendo que o primeiro é uma parte apertada e a segunda é uma parte um pouco menos apertada. Em suma, de um lado alunos e do outro funcionários e as pastas. Sim, as pastas, essas coisas onde os professores lotam de coisas para serem lidas – motivo, afinal, pelo qual vão os alunos até o xerox.

Para poupar o leitor de entediosa descrição pormenorizada do sistema operacional do xerox e sua participação no lucrativo submundo da educação universitária, bem como economizar nas adjetivações subjetivas, completo a introdução apenas a título de maior entendimento dizendo que a coisa se processa de modo simples: o aluno informa ao funcionário o número da pasta, o funcionário traz a pasta, o aluno analisa o que quer copiar, e assim também o pede ao funcionário. Mui simples, não fosse horário do rush.

Sim, rush, atropelo, engavetamento de pessoas no xerox. Geralmente no intervalo dos períodos, almoço e janta. E lá estava eu, a espera do meu lugar ao balcão, tentando fazer minhas cópias. Pela espera ser longa, me entreguei a observação.

Na minha frente havia um grupo de risonhas pedagogas – que com o perdão da observação, só fazem rir -, um casal alternativo, uns professores e seus pupilos, e alguns alunos indistintos quanto ao curso, estilo ou status maior. Seja como for, minha vez de ser atendido ainda ia longe.

Por um momento esqueci o que ia pedir, até que as risonhas pedagogas entre relinchadas – não por ofensa animal, apenas semelhança sonora – comentaram qualquer coisa sobre política educacional. Um estalo sugerido veio na cabeça: Marx!. Sim, um texto sobre teoria marxista era o meu objetivo. Não que eu goste, mas são ossos do ofício acadêmico. 'Marxismo induz a preguiça mental', não sei quem disse isso não sei quando, mas pareceu música aos meus ouvidos e culpei ele por toda minha preguiça presente e futura.

As pedagogas se vão, é a vez do casal alternativo alcançar o balcão. Por alternativo é difícil lançar um conceito, pois no setor acadêmico de humanas o alternativo é o comum e o comum é alternativo. Seja como for, de vista e fuxicos anteriores sabia eu se tratar de um casal todo 'ista'. Marxista, leninista, anarquista, comunista, socialista, ou um outro 'ista' qualquer de afinidades revolucionárias de cor esquerda; confesso que pouco sei sobre esses 'istas', mas não me importo pois quem se diz 'ista' geralmente também não sabe muito e cai em contradição. Acharia bonito a troca de carícias entre os dois não fosse o eco do bravejar, deles, sobre as instituições machistas, controladoras e opressivas de nossa sociedade capitalista – cruzes!. Mas fato é que até os istas precisam de um amor para chamar de seu.

Eles se vão, e agora dois professores e seus alunos são as bolas da vez. Intelectualidade instituída formalmente via organização social, em suma, ser professor, tem duas prerrogativas: uma é ser frustrado nos relacionamentos afetivos, e a outra é ter público ad aeternum para rir de suas piadas. Deduzo por simples observação empírica: professores raros são os que usam anéis de noivado ou casamento, e raros são aqueles que diante de uma piada boba não tenha seu Bira do Jô Soares de prontidão.

Seja como for, foram embora também, os professores à frente e os pupilos pendurados atrás rindo tanto quanto as pedagogas. Quase alcançando o balcão só espero a massa de alunos indistintos pegarem o que querem e irem embora. Como estou quase na ponta da fila, muita gente se aglomera atrás. Se eu fosse gaúcho uma piada caberia, mas como não sou, nada cabe – o que dá pano para outra piada.

Os alunos indistintos vão embora, chego até ao balcão. Pasta 495, por favor. O funcionário com a vontade que merecidamente não tem, olha lenta e vagarosamente a prateleira de pastas. Nada. Busca na outra prateleira. Nada. Resolve checar se por a caso a pasta 495 não estaria jogada por cima, sinal de que a pouco alguém a tinha usado. Aí ele a achou; pousada numa parte do balcão distante de onde eu estava, estava a pasta 495. O funcionário, repito que com a vontade que merecidamente não tem, aponta para ela e dá os ombros. Te vira, imagino que ele tenha dito em pensamento. Por sorte, um outro funcionário, esse sim deveras prestativo, me alcançou a pasta 495. Cabia até uma música de fundo no melhor estilo Rocky.

Um vento bateu, e trouxe um perfume. Morango, cereja, amoras. Talvez, não sei. Devia ser de alguma frutinha vermelha simpática tamanho era o prazer olfativo causado. Do meu lado chega uma mulher. Não dava 30 anos para ela. Pele alva, rosto com umas sardas cheias de graça, cabelo liso e preto. Olhos não vi, pois como sabe o leitor, em Curitiba é atentado ao pudor encarar nos olhos alguém tão próximo quanto ela estava de mim.

O cheiro bom era dela, mas emulava alguma frutinha vermelha muito da simpática. A mulher carregava algumas partituras; ignorante que sou em música, só pude notar a beleza que é uma página cheia daquelas notas musicais em longas linhas que se sucedem por todo o espaço em branco. No canto superior direito, um nome de italiano; imagino que o autor. No centro, também no alto, um nome que não recordo, pois minha atenção ficou toda numa frase logo abaixo: Moderato Affettuoso. Não sei o que é, mas é um treco bonito de se ler quando eu nariz é tomado por um perfume de frutinhas vermelhas simpáticas.

Volto para meu mundo e dou a devida atenção à cópia que preciso fazer. Procuro entre as folhas grampeadas da pasta 495, mas nada. Ou o material ainda não chegou, ou algum aluno roubou – outra tragicômica picardia do mundo acadêmico.

Teria sido tudo mui simples e esse texto acabaria no quarto parágrafo, não fosse o horário do rush.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Os pupilos do senhor reitor

Como sabem – afinal, quem lê nossa bodega na certa o faz por proximidade pessoal, e não por hedonismo literário –, estive matriculado em Ciências Sociais na UFPR de 2006 até a metade de 2008. Tinha aulas nos prédios da Reitoria e fazia laboratório sobre a sociabilidade urbana no pátio entre os prédios durante as idas e vindas regadas a cafeína.
Confesso que não fui o mais aplicado dos acadêmicos. Nem o segundo melhor. Sequer o terceiro. O que tem seu lado bom: o último serei o primeiro. Mas, além desse recurso retórico, e não obstante eu fuja do estereótipo bicho-grilo-maconheiro-com-tempo-de-ler-teóricos-anacrônicos-e-ver-a-banda-passar-no-pátio-da-reitoria e não conheça com profundidade muitas respostas a algumas questões que eu mesmo nutro, tive algum aprendizado que não sai de mim não sai de mim não sai. Assim como quem ouve Chico Buarque e Tom Jobim não apenas aprende a cantá-los, mas conhece Chico Buarque e Tom Jobim – ganha consistência.
Senão as amizades singulares que me sustentam generosamente nos caminhos que escolhi, mesmo que distantes desse pátio, a melhor parte desses poucos anos em que fiz Ciências Sociais são algumas certezas que trago comigo. O acesso ao pensamento científico-formal trouxe alguns nortes que eu não encontraria no círculo doméstico, religioso ou profissional. São portas específicas.
Entre elas, o fato de eu olhar criticamente para tudo e todos. Olhos de julgamento analítico. Olhos ora compreensivos, ora rotulantes. Algo pouco cristão, é verdade, mas desvendar(-se) exige uma coragem, um distanciamento e uma doação perene – mais que dez por cento dos esforços, mais que um horário marcado com o êxtase do encontro íntimo. O filem acadêmico não dá conta de todas as demandas do ser humano, mas abre-nos os olhos para algumas maravilhas e alguns horrores da sua manifestação.
Não se trata de divinizar a Ciência. Afinal, como ilustração, há teorias que sustentam a superioridade de uma etnia perante as demais. A questão é outra, quase oposta: se há na Ciência um ranço positivista de culto à razão (ou a sofismas), há também uma dimensão de liberdade. Um espectro lúdico ronda os bastidores da Ciência; um espírito onírico, de quem não dá conta e sequer reconhece, existe por ela.
Não precisamos ir longe. A arte ama a Ciência. O pensamento científico ainda representa, em alguns aspectos, a libertação de uma criatura subjugada pelo seu Criador – ela toma as rédeas do mundo do saber e torna-se produtor de conhecimento. A arte é justamente a licença poética que a Ciência precisa para ser plena.
Em termos objetivos, julgo que a Ciência seja um fenômeno inédito na história da humanidade. Num recorte milenar, nenhum outro advento gerou tamanho impacto no direcionamento da História. Afinal, é graças à Ciência que o fogo hoje é vendido praticamente em caixinhas e uma parte considerável da humanidade dispõe de meios de transporte impensáveis há alguns séculos. E o bojo ideológico parece-me ainda mais pontual. Onde pulsa a Ciência? Na academia, é claro! É lá que residem os matizes de humanismo que a Ciência gera por resíduo, por antítese, por resistência, por capricho. É lá que se afirma quem é mais importante. É lá que o ator social veste-se autenticamente e usa as cores que lhe convém com liberdade. É lá que o homem científico sente-se em casa. É lá que pulsam as regras do jogo dessa Ciência passional. É lá que o homem é inteiro.
Quem diria: o pátio da Reitoria faz bem para a auto-estima da humanidade.