sábado, 4 de julho de 2009

Às vencedoras, os caquis!

Adicionar vídeoO cartaz branco e de letras grossas vermelhas anunciava a promoção do dia: Caqui. Não sei se era barato ou não o preço em questão, mas se formava um pequeno alvoroço agitado em torno da bancada da dita fruta, e notavelmente composto por senhoras idosas.

Estimulado pela vontade de comer caqui, fui chegando perto do burburinho. Dentre aquela dúzia de senhoras, todas de costas para mim e entertidas com a caça aos bons caquis, havia um pequeno espaço. Assim como quem não quer nada, enfiei-me de lado tanto quanto o espaço permitia, preocupado em não esbarrar nas frágeis idosas, só o suficiente para que meu braço alcançasse as frutas. E aí eu vi: se de fora parecia agitado, de dentro estava ainda pior.

Eram incontáveis as mãos sobre as frutas; em um movimento frenético, elas apalpavam tantas quanto podiam e logo, como num malabares, arremessavam para dentro do saco que a mão livre sustentava; eram mãos enrugadas, com unhas em tom perolado-velho, mas incrivelmente ágeis! Algumas senhoras, espertas e corporativas, formavam duplas: uma escolhia usando ambas as mãos, enquanto a outra segurava o saco plástico feito uma cesta de basquete. Repito que era incrível a velocidade com que elas faziam todo o processo.

Eu, lento e leso na arte de escolher-ensacar frutas, logo me vi atordoado. Levei alguns arranhões das unhas peroladas-velhas , mas eram tantas as mãos que sequer pude achar a culpada(sacana oportunista!). Perdido por um instante, sem saber se recolhia minha mão cada vez com mais arranhões vindos daquela orgia de dedos e unhas, uma das senhoras me deu um baita chega pra lá com seus potentes quadris. Eu, que estava de lado, fui arremessado feito saco de batatas para cima de outra senhora.

Ainda bobo com aquele ato, eu já me preparava para reassumir posição e pegar tantos caquis fosse possível - era questão de honra agora! Contudo, havia cerca de dez senhoras dificultando a coisa toda. E para piorar, àquela pobre idosa para a qual fui arremessado após o chega pra la, ficou enraivecida e me deu uma puta ombrada no meio das costas! Poxa vida! Como diz o Arnaldo, a regra é clara: chegou no corpo do outro jogador, mas não foi ombro a ombro, é falta!

Depois do segundo sacode, o instinto de preservação da espécie falou mais alto: Danem-se os caquis, eu vou é sair daqui. Me afastei tanto quanto pude daquela selvagem busca pelos caquis promocionais, e de longe assisti um bando de senhoras disputando entre si.

Elas podem ter enganado a todos. Aquelas roupas no melhor estilo 'roupinha de vovó', cabelos grisalhos, e óculos de grau certamente despistaram os outros clientes, mas não a mim, detentor de um apurado olhar sociológico. Na certa era a divisão feminina do time curitibano de Rugby da terceira idade. Não há dúvidas. No mínimo sairiam dali direto para a academia, parando no meio do caminho numa dessas lojas de suplemento alimentar. Pois nunca vi umas senhoras tão porretas quanto àquelas. Quanto a mim, tal como os pequenos animais da savana africana, esperei os leões se servirem para depois pegar os restos.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Os pupilos do senhor reitor

Como sabem – afinal, quem lê nossa bodega na certa o faz por proximidade pessoal, e não por hedonismo literário –, estive matriculado em Ciências Sociais na UFPR de 2006 até a metade de 2008. Tinha aulas nos prédios da Reitoria e fazia laboratório sobre a sociabilidade urbana no pátio entre os prédios durante as idas e vindas regadas a cafeína.
Confesso que não fui o mais aplicado dos acadêmicos. Nem o segundo melhor. Sequer o terceiro. O que tem seu lado bom: o último serei o primeiro. Mas, além desse recurso retórico, e não obstante eu fuja do estereótipo bicho-grilo-maconheiro-com-tempo-de-ler-teóricos-anacrônicos-e-ver-a-banda-passar-no-pátio-da-reitoria e não conheça com profundidade muitas respostas a algumas questões que eu mesmo nutro, tive algum aprendizado que não sai de mim não sai de mim não sai. Assim como quem ouve Chico Buarque e Tom Jobim não apenas aprende a cantá-los, mas conhece Chico Buarque e Tom Jobim – ganha consistência.
Senão as amizades singulares que me sustentam generosamente nos caminhos que escolhi, mesmo que distantes desse pátio, a melhor parte desses poucos anos em que fiz Ciências Sociais são algumas certezas que trago comigo. O acesso ao pensamento científico-formal trouxe alguns nortes que eu não encontraria no círculo doméstico, religioso ou profissional. São portas específicas.
Entre elas, o fato de eu olhar criticamente para tudo e todos. Olhos de julgamento analítico. Olhos ora compreensivos, ora rotulantes. Algo pouco cristão, é verdade, mas desvendar(-se) exige uma coragem, um distanciamento e uma doação perene – mais que dez por cento dos esforços, mais que um horário marcado com o êxtase do encontro íntimo. O filem acadêmico não dá conta de todas as demandas do ser humano, mas abre-nos os olhos para algumas maravilhas e alguns horrores da sua manifestação.
Não se trata de divinizar a Ciência. Afinal, como ilustração, há teorias que sustentam a superioridade de uma etnia perante as demais. A questão é outra, quase oposta: se há na Ciência um ranço positivista de culto à razão (ou a sofismas), há também uma dimensão de liberdade. Um espectro lúdico ronda os bastidores da Ciência; um espírito onírico, de quem não dá conta e sequer reconhece, existe por ela.
Não precisamos ir longe. A arte ama a Ciência. O pensamento científico ainda representa, em alguns aspectos, a libertação de uma criatura subjugada pelo seu Criador – ela toma as rédeas do mundo do saber e torna-se produtor de conhecimento. A arte é justamente a licença poética que a Ciência precisa para ser plena.
Em termos objetivos, julgo que a Ciência seja um fenômeno inédito na história da humanidade. Num recorte milenar, nenhum outro advento gerou tamanho impacto no direcionamento da História. Afinal, é graças à Ciência que o fogo hoje é vendido praticamente em caixinhas e uma parte considerável da humanidade dispõe de meios de transporte impensáveis há alguns séculos. E o bojo ideológico parece-me ainda mais pontual. Onde pulsa a Ciência? Na academia, é claro! É lá que residem os matizes de humanismo que a Ciência gera por resíduo, por antítese, por resistência, por capricho. É lá que se afirma quem é mais importante. É lá que o ator social veste-se autenticamente e usa as cores que lhe convém com liberdade. É lá que o homem científico sente-se em casa. É lá que pulsam as regras do jogo dessa Ciência passional. É lá que o homem é inteiro.
Quem diria: o pátio da Reitoria faz bem para a auto-estima da humanidade.