sexta-feira, 2 de abril de 2010

Luís e a Vida Positiva


Luis acordou cedo e bem disposto, na noite anterior havia decidido a não deixar mais nada lhe aborrecer, e que evitaria ficar bravo ou com raiva. Ele havia visto num programa de televisão as benesses que uma vida ‘positiva’ poderia lhe trazer, assim pesquisou na grande rede e freqüentou um ciclo de palestras duma instituição cujo emblema e o nome misturava filosofia, misticismo e biologia. Na noite anterior ele havia se formado num simpósio de dez semanas, com certificado e tudo, assinado por um parapsicólogo.

Preparou seu café, evitou colocar o açúcar, também havia aprendido como a alimentação saudável pode mudar o movimento do cosmos e fazer a manutenção da vida ‘positiva’. Comeu uma broa integral com queijo branco, qualquer pessoa em sã consciência acharia aquilo horrível, ele adorou. Fez a barba e se perfumou, sabia o quanto a boa apresentação é positiva para a percepção que as pessoas fazem de si. Tomou o ônibus um pouco mais cedo do que o de costume.

Logo que entrou no ônibus, teve sua primeira prova de paciência, o ônibus estava lotado. Respirou fundo, e fez como lhe ensinaram, pensou em um lugar bonito, voltou a concepção holística do universo entendeu todos os presentes ali como seus irmãos, procurou se colocar numa situação de empatia, e entender que todos ali tinham suas preocupações, e que se estavam ali provavelmente havia algo que os unia. Uma convergência de contextos, que gerou uma conjectura própria, com suas regras específicas e ele aceitava o papel de ser um cavaleiro numa cruzada para impor os princípios de respeito e amor naquele local. Assim, foi entrando no ônibus, pedindo licença e tentando ser o mais educado possível. Apesar de seus esforços só conseguia com que as pessoas bufassem quando ocorriam encontrões. Aos trancos e barrancos chegou até a cobradora. Como um bom representante da ‘filosofia da vida positiva’ havia deixado o dinheiro separado, em moedas, para facilitar o troco. Exatamente no momento em que pegou as moedas nas mãos o ônibus freou bruscamente, as moedas espalharam-se por todo o ônibus, pisoteadas por todos. Não havia a menor possibilidade de sequer pensar em junta-las. Uma raiva lhe subiu, mas ele conseguiu se controlar e evitou o xingão que estava prestes a bradar.

Respirou fundo, pensou em um lugar bonito, pegou a carteira. Deu bom dia a cobradora, ela olhou-o com desprezou e balbuciou qualquer coisa, o que só o fez aumentar a raiva. Só tinha uma nota de 50 reais na carteira, deu-a para a cobradora, ela retornou 20 reais de troco, ele ficou esperando o restante, ela apontou para a plaquinha na janela que dizia “Troco Máximo 20 reais”. Ou seja, pagou trinta reais numa viagem de 30 minutos. Pensou em reclamar, mas sabia que aquilo não cabia a quem queria levar uma vida positiva. Pagou, pensou em um lugar bonito, o número de arvores deste lugar diminuía em seus pensamentos, e os animais do lugar estavam ficando de mau humor também.

Entrou mais adentro no ônibus, as pessoas bufavam, mas não havia como passar sem empurrar, além do que todos o olhavam com desprezo por ter pago trinta reais na viagem. De repente ouve-se um barulho na parte da frente do ônibus, parecia que uma pessoa havia caído. Logo chegou a noticia, uma senhora velhinha tropeçou em uma série de moedas de cinco centavos, que um engomadinho havia derrubado! Todos a sua volta o olharam feio. Um deles perguntou “Pra que tanta moeda cara? Você ta loco?”. Luis corou. Tentou pensar num lugar bonito, mas sua floresta florida estava tornando-se um cerrado...

Pouco depois uma outra senhora apertou a campainha para descer muito perto do ponto e o motorista deu outra freada brusca. Acontece que a senhora não conseguiu se segurar nas barras, e para não cair segurou o Luís, tão forte que ele sentiu carne ser arrancada pelos seus arranhões. Todos em volta deram sorrisos de satisfação, parecia alguma forma de vingança pela velha do parágrafo anterior. Tentou pensar em um lugar bonito, mas a única coisa que vinha a sua cabeça era um descampado.

Desceu em seu ponto, suas costas doíam e incomodavam. Uma pessoa na rua lhe falou que sua camisa estava suja de sangue. Ele olhou no vidro de uma loja, de fato estava. O pior é que ele tinha uma reunião importantíssima no primeiro horário. Correu para tentar comprar uma camisa em uma loja, comprou e fez um curativo rápido, assim que saiu da loja e foi atravessar a rua um carro passou por uma poça e expirrou lama nele. Ele estava na quadra do trabalho, e cerca de trinta minutos atrasado para a reunião com os maiores acionistas da empresa. Decidiu entrar.

Estava tão sujo (naquele ponto o curativo das costas já havia rasgado) que o segurança não o reconheceu e tentou impedi-lo de entrar, ele não tinha tempo de explicar, e era o único com treinamento em English Bussines Aplication, portanto o único que poderia dirigir a reunião,entrou correndo. O segurança foi atrás, mesmo assim chegou no elevador antes dele.

Chegou em seu andar, e entrou correndo na seção, todos olhavam aquilo assustados, ninguém o reconheceu, nem mesmo as menininhas que tentavam seduzi-lo para subir na empresa. Entrou na sala de reuniões dizendo para si mesmo “pense num lugar bonito, pense num lugar bonito...”. Mesmo assim, só pensava no caos, na fumaça na lotação, na ausência da paz, barulhos corriam em sua cabeça, e flashes de luzes.

Seu chefe o reconheceu, mandou-o se acalmar, disse que não era necessário entrar na sala, pois o funcionário novo já estava fazendo a ponte e dirigindo a reunião, disse para ele não se preocupar e tentar ver o lado “positivo” de tudo aquilo.

Tentou pensar em um lugar bonito, só viu a imagem da explosão nuclear em sua cabeça, quando viu sua boca abriu automaticamente e gritou “positivo o c***!” derrubou seu chefe com uma bordoada (ele foi quem foi com ele para as reuniões da filosofia da vida positiva) e estava encima do funcionário novo (também adepto) enchendo-o de porrada. O segurança chegou e tentou para-lo, Luis jogou-o por cima dos ombros, e começou a gritar a bater contra o próprio peito, numa cena digna de King Kong.

A policia foi acionada, e como era uma empresa rica, chegou rápido. Levaram Luis que estava em estado catatônico num canto após ter posto em nocaute o diretor, o funcionário novo, a equipe de sete acionistas da empresa e mais alguns curiosos.

A polícia fez algumas perguntas ao pessoal, todos diziam que foram coisas horríveis que aconteceram, a volta à barbárie, uma encenação dos instintos mais primitivos, assustadores e prazerosos (uma mulher disse isso) do ser humano. O pobre Luis foi encaminhado a um Centro de Recuperação PsicoTerapeuticoAntropoSocial, e logo morreu de desgosto. Ele foi para um lugar bonito.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Seria uma piada?

Precisei de uma identidade nova – a de papel e plastico, não a moral e metafísica. E o que já prometia ser minimamente demorado – a fila no Instituto de Identificação do Paraná ia bem longa – conseguiu demorar ainda mais, pois um funcionário veio dar a terrível noticía: o sistema caiu.

O “sistema”, ou então o grande Sistema. Seja com letra maíscula ou com as aspas neuróticas, ele tinha caído e ia atrasar a coisa toda. Sentado na cadeira de espera, suspirei e fiquei a olhar o povo a minha volta. Foi curioso que depois que o tal funcionário deu o aviso, todos os outros foram até ele. Reunião de última hora para solucionar o problema do Sistema? Que nada. Começaram a ter uma conversa muito da animada, tão animada que logo tudo era risos e dancinhas festivas. Deviam estar rolando uma piada muito boa.

- Aí ele perguntou pra mim, ”Ah, então vai ser rapidinho,né?”. Hahahaha, rapidinho! Hahaha.

Já que todos os atendentes, dos 8 guichês, riam horrores, deve ter sido mais ou menos isso.

Mas se eu estava lá, só estava por causa de outra piada: a primeira semana de aulas da UFPR. Essa piada, aliás, que a gente cansa de tomar conhecimento todo início de semestre, mas sempre acaba indo, acordando cedo, se apressando todo para não chegar atrasado e causar uma má impressão ao professor; em suma, faz tudo que um veterano sabe que não precisa fazer.

É sempre uma piada que ninguém entende direito. Eu pelo menos não entendo nada e tô sempre lá só pra perceber que nem aluno nem professor vão dar as caras. Assim como não entendi aquela rodinha dos funcionários do Instituto de Identificação tão animada. E por não entender a gente acaba ficando - como dizem no interior - de varde.

Sei lá, vai ver o Carlos e o Thiago, agora também funcionários públicos, metidos nas engrenagens institucionais, sovados pela máquina burocratica, rodados nas rotinas dum servidor, entendam essas piadas. Talvez também riam com elas enquanto os outros ficam lá, sentados, com compromissos desmarcados, com um tempo que não depende mais deles, ficando cada vez mais rabugentos, cada vez mais cegos diante de algumas limitações reais que não dependem de modo algum da boa vontade do funcionário público risonho em questão - justamente por que ele é todo risonho.

Diante disso tudo uns se emputessem com direito e legitimidade, e outros só por puro tédio – como eu timidamente assumo.