
- Meus filhos estão crescendo. Esse ano todos tomaram um rumo na vida, isso faz uma mãe tão feliz!
- Ai, mãe! Para com isso. – o filho mais velho é sempre o mais não-nostálgico.
- Ah, eu to feliz, filho. Você professor, formado, se sustentando. Teu irmão com trabalho garantido, tentando um negócio próprio. E o César...
(silêncio na mesa, todos os olhos se voltam por um instante para o caçula de futuro incerto calado no outro lado da mesa)
- Bem – continua a mãe fingindo que só tinha tido dois filhos - logo virão os netos, né? Vai ser tão bom.
- E só vai faltar o César, certo!? – diz o pai, garantindo que o caçula não vai sair limpo dessa história.
- O César é o mais novo, e ele também ta indo no seu caminho, ta virando homem e...
(risadas irrompem na mesa, menos naquele que está recebendo as risadas pois, por algum motivo, ‘César’ e ‘homem’ na mesma frase sempre foi motivo de riso)
- Ele é um patinho feio ainda, mas um dia vai ser um cisne bonito e vistoso – continua a mãe com toda sua bagagem metafórica suspeita.
- Caramba, que papo é esse, mãe!?
- Ah, César. Você sabe... Você ainda tem que desabrochar, igual a uma flor. – nunca a inocência materna beirou tanto a maldade materna.
(risadas novamente)
- Mãe, não sei se percebeu, mas você não tá ajudando muito...
- Que nada, César! Ela ta certa... só falta você DES-brochar. Entendeu, né? DES-brochar! – irmão mais velho além de não nostálgico tem o dom de sacanear o caçula.
Depois de mais um série de gargalhadas na mesa, gargalhadas essas que o caçula – a saber, eu – não compartilhou, o santa inquisição no seio familiar se deu por encerrada. Veredicto? Fogueira moral para este pecador que vos fala. ‘Queima! Queima! Queima!’, gritava a multidão ensandecida.

