quarta-feira, 11 de junho de 2008

O lápis quer ser caneta.


O lápis queria, do fundo de seu grafite, ser uma caneta. Cansara-se de tanto escrever, rabiscar, riscar, para que depois viesse a implacável borracha e lhe apagasse. Queria que todas suas anotações fossem tidas como sérias e que uma vez escritas, nunca seriam reformuladas. Nem borradas!

Toda vez que se colocava de lado para que a caneta, toda prepotente, fizesse uma rubrica ou passasse a limpo tudo o que ele, o lápis, tinha feito, sentia-se nada mais do que isso: uma coisa que ao tornar-se inapagável teria de abandonar sua escrita original. Não tinha outro jeito, o lápis tinha que se tornar caneta.

Estava saturado de gastar seu grafite em poemas apaixonados e fórmulas exatas. Todas as palavras que tinha delineado para dar forma literária ao amor só tinham validade quando caneta passava-lhe sobre. Tudo o que conseguia calcular precisamente, de nada valia se não fosse em azul ou preto; o cinza, perecível a borracha, de nada valia. Quando retirava-se para dormir em seu modesto penal de colegial, perguntava-se por que de tamanha má sorte, por que de ter sido fabricado como um lápis e não como uma caneta.

Não gostava de escrever isso, mas sentia inveja da caneta; ela estava sempre pronta para o que desse e viesse, vivia mais, servia mais, vendia mais, era forte em várias superfícies e mais forte que o lápis justamente nas superfícies na qual eram sua especialidade. Um caderno em branco sempre daria mais notoriedade para uma caneta; até o sistema favorecia a caneta.

E não era só isso. Olhar-se num espelho perdido na mochila era sentir ainda mais inútil por ser um lápis; não vivia sem um apontador por perto, e quando estava sendo utilizado por uma das mãos, a outra sempre segurava uma borracha. Uma condição de existência estressante, além do que, a caneta vive muito bem sem qualquer apontador, ela é independente e inapagável.

A pior crise que o lápis teve, e que foi também a primeira vez que quis ser uma caneta, foi quando sobre uma folha em branco, a serviço de um apaixonado errante, escreveu numa linha coisas sobre o amor, a paixão, o futuro brilhante e a felicidade prometida, mas um ou dois dias depois, escreveram por cima dele com caneta, sem dó nem piedade, coisas sobre ódio, desilusão, passado frustrante e uma infelicidade constante. Só depois lhe apagaram e lá ficou, forte como sempre, as letras da caneta.

Por fim, o lápis cansara-se de seu ser-objeto. No fim daquele bimestre, quando chegara o seu fim e não lhe restavam mais do que alguns poucos centímetros de vida, olhou para todas as páginas que escrevera e que foram viradas displicentemente. O que seriam de todos seus verbos passados? Estava esgotado e sem ânimo para mais nada, estava para perder a ponta.

Como ultimo ato, quis fazer as pazes com a borracha. Falou-lhe de seus dramas existenciais, e a borracha, flexível como sempre, pediu desculpas sinceras e, tentando confortar o lápis, disse-lhe que deveria estar feliz por que de tudo o que fazia, pelo menos algo era visível -ou poderia ser-, ao contrario da borracha que só fazia apagar e nunca teria notoriedade nenhuma, nunca deixaria algo 'escrito' no caderno.

Ficou pensativo. Resolveu falar com o seu próprio coveiro, o apontador. Explicou-lhe dos seus problemas e queixou-se da condição de lápis. O apontador, frio em seu misto de plastico e lâmina, só disse que o lápis era um bobo, pois todos sabiam que se queixava de boca cheia; quem era aquele que dava os primeiros passos para a construção final, mesmo que ela fosse feita pela caneta? O lápis! O apontador finalizou dizendo que ele sim tinha motivos mais verdadeiros para se queixar, pois tudo o que fazia era uma pequena participação, e rara, em qualquer texto que fosse.

O lápis ficou confuso com o que ouvira, mas ainda estava certo de sua condição. Se a borracha era triste por não deixar nada escrito, o lápis achou-se mais triste por que tudo o que deixaria escrito um dia se apagaria ou seria ofuscado por uma caneta. Se o apontador achava-se triste por deixar uma pequena atuação na obra geral, o lápis sabia que sua participação seria sempre o meio termo, o chove não molha, o escreve e apaga.

Não adiantava, o lápis cansara-se de seu grafite e de sua sempre cinzenta presença. Antes de seguir para seus centímetros finais, imaginou por aulas inteiras realizando uma escrita colorida, inapagável, última, essencialmente com o pé na eternidade e fugindo da triste história de tudo que é efêmero perante uma borracha.

domingo, 8 de junho de 2008

Eu mato, eu mato quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato

Vozes alteradas. Polêmica em frente à televisão:
- Se eu achasse uma mala com dinheiro, eu só devolveria se soubesse quem foi que perdeu. Ou se tivesse medo que o dinheiro fosse sujo, de máfia, essas coisas. Se não, não. Vou dar pra polícia? Nunca!
- Ah, eu só devolveria se tivesse algum grau de afinidade com a pessoa.
- Ah, não. Se eu soubesse quem é o dono, mesmo que não tivesse afinidade, devolveria.
- Eu não. Quem me garante que se eu perdesse meu dinheiro alguém me devolveria?


Leitores amigos [arrisco serem amigos porque apenas esses aturariam esses o blogue], paira acima o espectro do pensamento mais obtuso que ronda o novo e o velho mundo: o pensamento egoísta.
A primeira criatura, receando que a polícia fizesse apropriação indevida do dinheiro alheio, resolve fazê-lo ela mesma. A segunda criatura não faz aos demais aquilo que espera para si mesma.
O diálogo dinheirista explicita as diferentes éticas professadas por diferentes pessoas. Na certa o mesmo ocorre com os leitores amigos e suas motivações. Por isso, vou chamá-los a duas reflexões: a subjetiva e a objetiva – embora eu creia que são faces complementares.
A ordem subjetiva de que falo é aquela análise psicológica movida pela abstração empática e fraterna comumente condicionada por valores religiosos que recaem na ética do trabalho. Ora, os recursos materiais são conseqüência de merecimento e são dados ao homem para fazer uso responsável e conseqüente, para si e para outrem. Não é sensato crer que malas de dinheiro caem do céu. Se se acha uma mala, antes de pensarmos na necessidade a ser suprida ou nas condições em que ela caiu em nosso colo [que na certa nos parecerão mágicas o suficiente para legitimar nossa sanha mercantil], precisa-se pensar que ela não é nossa. Simples: não é meu, não pego. Se pegar, devolvo. Se não tiver pra quem devolver, vai pra Polícia. Porque a verdadeira paixão cristã, tomando-a por exemplo, é renunciante. Assim imagino o Thiago.
E se alguém quiser doar o dinheiro pra instituições de caridade, oferecê-lo a pessoas amigas, deixar um agrado para a mulher do pão, fazer filantropia de toda sorte, contemplar o porteiro, presentear qualquer pessoa sorridente da rua, complicar a declaração de imposto de renda de algumas dúzias de pessoas, conhecidas ou não? Não, não sou tão ranzinza: é claro que não esqueço dos libertos! E é para eles que abro esse parágrafo especial. Aquele que consegue registrar coelhos fofinhos no céu e espeta morangos nos dedos para comê-los em fila podem dar o fabuloso destino descrito acima ao dinheiro sem preocupações com a legitimidade. Seria altruísta o suficiente para receber aval do Todo Poderoso e estaria de acordo com a perspectiva objetiva.
Por sua vez, essa perspectiva objetiva vem a ser uma análise social conduzida pela razão do sujeito histórico – a imanência pode ser suficientemente moral. Aqui imagino o César. Basta recriarmos uma tipologização dicotomizada entre a extrema solidariedade e entre o extremo egoísmo [algo como Durkheim ou os conceitos de apolíneo e dionisíaco]: a sociedade apolínea ou a mais solidária e coesa na certa são mais sustentáveis. Basta essa premissa para que tenhamos uma moral mais reta, mesmo que a consciência não remeta a nada mais transcendente.
No entanto, não é necessária qualquer forma de pensamento mais elaborado. A ética cristã está difusa no senso comum e determina com segurança a não apropriação da propriedade alheia. Não faça ao próximo aquilo que não quer que lhe seja feito, recomenda.
Assim, com largo espaço para as diferentes motivações que orientam os leitores amigos, é possível concluir que deixar malas com dinheiro perto do César ou do Thiago provavelmente seja mais seguro que guardar o dinheiro na cueca.