segunda-feira, 15 de junho de 2015
A vida e o melão
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
O Dia Mundial dos Introvertidos
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| Sim, o mundo é feito (também) por introvertidos! |
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Médicos e Gnomos (ou 'Geneticmente Psicossomático)
A partir daí (e não me pergunte como foi que ele conseguiu sair do parque) sua vida entrou em dias tenebrosos, foi um correria de médicos fazendo exames e não encontrando nada. Obviamente indicavam outros especialistas que sugeriam tratamentos experimentais caríssimos com remédios de laboratórios famosos sem garantir melhora. Edmilson já havia perdido a esperança, mas sendo um homem metódico resolveu se consultar com o último médico da lista do plano de saúde (era o mais barato).
Chegou a um consultório em um prédio marrom com um ar opressor num canto afastado da cidade. Foi recepcionado pela secretária que aparentemente estava lá desde os anos 70 sem voltar para casa. Enquanto aguardava leu a revista seleções mais recente que encontrou, 1986. Seu estado de espírito estava com uma impressão tão ruim do lugar que quando foi chamado pensou em desistir da consulta, mas quando lembrou do esforço que teve para chegar lá pela escada achou uma nova opinião não faria mal.
O ‘doutor’ era um homem pequeno, com uma aparência diferente que dificultava supor qual era sua idade, tinha olhos atentos com um quê de malícia que o conferiam um ar de sagacidade. Ele encarou longamente os olhos de Edmilson enquanto ele se aproximava da mesa.
A consulta estava ocorrendo normalmente, com Edmilson apresentando sua pasta de exames e o médico fazendo-lhe as perguntas de praxe. Encucado com a magnitude do problema o doutor coçou a rala barba enquanto suspirava analisando uma série de exames inconclusivos, então falou:
- Ineficaz por ineficaz sugiro que façamos um mapa astral, também tenho algumas perguntas sobre seus pais, pode deitar neste divã por favor – disse apontando o divã verde acinzentado e empoeirado. Edmilson assustou-se com o sincretismo investigativo, mas o doutor foi tão incisivo e obstinado que ele atendeu prontamente.
Após cerca de três horas de conversa e muito choro das duas partes, os dois sentiam-se como velhos amigos, o médico pediu permissão para ser franco e disse-lhe:
- Sinceramente querido, seu problema é grave, mas parece ser de uma origem “geneticamente psicossomática” – ilustrou as aspas com os dedos, - eu conheço uma “pessoa” – novamente, - que pode te ajudar, mas tenho que te avisar que existe muito preconceito com o tipo de tratamento que ele oferece.
- A esta altura eu não me importo – respondeu Edmilson.
- Pois bem, ele é um gnomo, aqui esta o cartão com o telefone, endereço e a batida secreta da porta. – O doutor falou de forma calma e pausada, olhando por cima dos óculos para que Edmilson não duvidasse. De fato sua resposta sequer deixou transparecer as dúvidas que ele sentia:
- Mas o plano de saúde cobre isso? – Perguntou Edmilson pegando o cartão colorido.
- Certamente, está aqui no escopo do Plano, ao lado de homeopatia, psicologia e acupuntura.
No dia seguinte, Edmilson foi ao endereço indicado e encontrou uma grande arvore, embaixo de um grande cogumelo, com uma porta. Bateu do modo solicitado na porta e foi prontamente atendido por um simpático gnomo. Beliscou-se e não restando dúvida de que estava acordado aceitou o convite de entrar.
Uma vez lá dentro a consulta ocorreu de forma normal, as mesmas perguntas e a analise dos mesmo exames, porém quando ele acabou de contar o causo o gnomo disse:
- Não se preocupe, tenho a solução, – falou dando baforadas no longo charuto e abrindo um sorriso – e vou faze-la agora mesmo.
Quando Edmilson viu o chá de cogumelos sendo preparado, objetou:
- Peraí, cogumelo também não!
- É isso ou o Templo De Salomezão.
- Ok, charlatanismo também não né – Respondeu Edmilson rindo com o gnomo.
- Enquanto tomavam o chá e passavam a tarde juntos, Edmilson percebeu que não poder andar já não era mais problema, uma vez que agora ele voava.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
domingo, 30 de setembro de 2012
Jesus e Adam Smith
A apropriação e transformação que o mundo moderno faz do cristianismo sempre me surpreende. É bem claro que a mensagem de Jesus pretendia ser atemporal e com um caráter que transcendesse a política, os judeus esperavam um messias que os libertassem do julgo dos romanos, Jesus oferecia uma mensagem que pretendia libertar o espírito. Talvez possamos resumir a mensagem de Cristo (como Paulo faz no final do famosíssimo texto de Coríntios 13) em fé, esperança e amor. Simples e objetivo. Mas será que existe uma mensagem que possa existir descolada de um contexto?
Fato é que ao longo da história utilizaram esta mensagem para cometer todo o tipo de atrocidade, não preciso entrar em detalhes. De repente estamos no século XXI onde impera uma ideologia capitalista, democrática e individualista (talvez até egoísta) e novamente a mensagem é reinterpretada. Os mistérios de Deus incompreensíveis aos homens agora são vendidos pela televisão, toda a hierarquia religiosa que Jesus derrubou ao afirmar ser o único caminho para Deus se remodelou e ganhou um caráter profissional e acadêmico e, via de regra, muito bem remunerado.
Em qualquer igreja que se frequente é comum ouvir pessoas afirmando terem esta ou aquela revelação por parte de Deus, em geral para a vida de uma outra pessoa. Antropomorfiza-se Deus e convencem o povo de que quem está lá na frente com um microfone é de fato um mensageiro dEle, principalmente se este profeta tiver o dom da oratória, da retórica. E uma vez que um número de fieis se convence disto vemos o surgimento de alguém com um privilégio de comunicação com Deus e que, portanto, pode dar pitaco na vida dos membros.
A lógica mercadológica capitalista provou-se novamente muito sagaz e apropriou-se do discurso cristão para legitimar o capitalismo e novas práticas religiosas. Claro que, o capitalismo não existe como um ser, mas sim através das pessoas que interiorizam este discurso. E a partir daí não há limites para a transformação da mensagem, a 'benção' virou moeda de troca, que virá para você se você trabalhar bastante, pagar seus impostos, dar o dízimo e ser obediente. Assim você será bem sucedido, afinal o que Jesus disse sobre vencer o mundo poderia ser um vencer NO mundo, principalmente o do trabalho.
Passa-se 8 ou mais horas por dia trabalhando gerando lucro para alguém, 8 ou mais horas dormindo, uma parcela de tempo cuidando do próprio corpo, estudando, e tentado vencer na vida, mas com a certeza de que esta é EXATAMENTE A VONTADE DE DEUS, e que estamos transformando o mundo num lugar melhor.
Aí esta nosso novo cristianismo pequeno burguês, seja ele vestido de um academicismo para as classes alta e média, seja ele com pinceladas de misticismo para as classes baixas, colocando pastores, padres, bispos, apóstolos como um caminho para alcançar a Deus e entender a si mesmo, revestindo-se de um discurso de um outrem para dar vazão a seus sentimentos, sem sequer procurar na Bíblia se o que dizem estar lá escrito realmente está.
Temos então um nova interpretação do cristianismo para cometer um novo tipo de atrocidade, o individualismo. Devemos ser bem sucedidos na vida para poder ajudar nossos irmãos e só eles. Devemos nos afastar do mundo, afinal isto que Jesus fazia de andar com o povo, prostitutas, cobradores de impostos e toda a parte considerada baixa da sociedade da época esta fora de moda. Infelizmente me parece ser mais fácil ser um cristão fora da igreja do que dentro de alguma.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Enigma
Ela se veste de forma esquisita, convenhamos. Usa umas roupas de outra década que a faz no mínimo singular. Acho legal quem veste brechó, mas ela abusa. Montada demais. Isso é. Mas isso não é um defeito, por outro lado. Não é um ponto negativo, desses pessoais, dessas coisas que formam a índole de uma pessoa. Ela quer fazer crer que o traje é sempre casual, quando é bastante calculado. Mas e daí? Não justifica o mal estar que ela provoca. Eu no fundo nem a imagino diferente.
Creio que esteja mais no formato do rosto. Ou nas expressões, sabe? Porque quando ela sorri, fica uma covinha um tanto displicente no rosto. Não é feio, ao contrário, mas chama a atenção. As pessoas olham. Eu me sinto um pouco invadido com isso. E eu não sei se ela faz de propósito: se ela apenas ri ou se ela ri para os outros. Porque se for para os outros, ah, se for para os outros então o buraco é mais embaixo. É. Não que ela me deva algo, imagine, mas já pensou? Pros outros? Não se faz.
Eu não sei o que dizer pra ela. Que ela me incomoda. Como assim? Digo: você me incomoda? Não se diz. Pensei em me afastar, mas não é assim que se resolve. Mas resolve não é o termo, porque resolver remete a um problema. Não é um problema. Temos nossas diferenças, acho, e é normal, não é? É um enigma, digamos. Ela é um enigma. Fica assim. Ela é um enigma.
(Fica assim enquanto eu fugir da palavra amor...)
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Palhaçada Vintage
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Substancialmente

(a leitura em ordem das notas, marcadas pelos asteriscos no texto, é fundamental para a compreensão do mesmo)
Claudio acordou cedo e dirigiu-se instantaneamente ao banheiro. Coçou sua barba que estava por fazer, alias ela sempre estava por fazer e sempre coçava. Ele deu o que gostava de chamar de ''uma cagada substancial'' aquela em que o obreiro* consegue por para fora tudo o que precisa, e melhor, não deixa muitos resquícios, o que torna a limpeza rápida e agradável (ou melhor, o mais perto de agradável que esta tarefa pode ser). Enquanto lavava as mãos ficou se encarando por um tempo no espelho, estava meio fora de forma com a barriga saliente, de samba-canção e uma camiseta cinza e desbotada, pensando na mesma merda de sempre (já que estamos falando disso): "Para onde estou levando minha vida? O que aconteceu com meus sonhos? por que eu não tenho coragem de sair desse emprego medíocre? ah é o emprego..." Estava um pouco atrasado, tinha tempo ou de tomar banho ou de tomar café, não os dois. Priorizou o café** que consistia em café em pão com ovo, seguido de mais café e bolachas.
Do outro lado da cidade Claudia começou seu dia de forma diferente. Acordou muito mais cedo que seu pseudo-homonimo-macho. Foi tomar banho, ela trajava um pijama ajeitadinho, poderíamos inclusive defini-lo como sexy. Ok, era um pijama sexy***. Enquanto tomava banho considerou a temperatura da água, sua disposição naquela manha, o cheiro do sabonete, do shampoo, do condicionador, do creme pré-banho, do creme de banho, do creme pós-banho e todos os acessórios adicionais cujos nomes desconheço e pensou "que banho agradabilíssimo!" Alias, teria pensado caso soubesse usar corretamente o aumentativo de agradável, o que não era o caso, na verdade ela pensou algo do tipo "que banho show!". Sendo uma pessoa extremamente vaidosa como era demorou algum tempo no ritual do banho, fazendo todas as feitiçarias que as mulheres costumam fazer nesse processo, e isso que não era sequer o banho de sábado, estávamos em uma quarta-feira comum. Posteriormente abriu sua necessaire, que do ponto de vista masculino continha tudo o que não é necessário (mas ok, tomemos o ponto de vista de um narrador neutro - como vocês percebem por ter chamado a garota de sexy no começo do parágrafo-****) e tomando um instrumento que não consegui identificar, mas que certamente era da família das pinças, passou a retirar pelos***** de seu corpo (ou rosto) até ficar perfeitamente simétrica, cada pelo tinha seu pelo´ (pelo linha).
Claudia tomou seu café, alias refeição matinal porque não tomava café, pão integral com queijo do tipo cottage light, uma fruta ressecada e um iogurte natural sem gosto. Sentiu-se very healthy******. Maquiou-se (não entrarei nos detalhes para não desperdiçar outro parágrafo da paciência do leitor) e foi ao trabalho.
Não sei se mencionei que Claudio e Claudia trabalhavam no mesmo lugar, uma repartição publica grande. Foram apresentados certa vez no passado e conheciam-se de dar oi e tchau.
A manhã estava agitada para uma quarta-feira. Não o suficiente para estragar o cafezinho que todo funcionário publico toma no horário do expediente para começar o dia. Nossos dois protagonistas se cruzaram no corredor enquanto iam resolver empecilhos burocráticos na papelada em que trabalhavam, trocaram um 'bom dia' e um sorrisinho. Claudia achava que o sorriso de Claudio, aqueles de canto de boca, e seu jeito 'descolado' ou 'descuidado' o conferiam um certo charme. E Claudio, como todos os homens da repartição, achava Claudia gostosa. Mas além disso achava ela uma pessoa intrigante, todo aquele cuidado com a beleza devia esconder uma pessoa de verdade******* por quem, por alguma razão, Claudio se afeiçoava. Por hora é só, cada um foi trabalhar.
Mais tarde, aquela tarde, Claudio fez uma cagada substancial não-literal com seu serviço, nesse ponto o leitor já deve ter notado que ele era um trabalhador relapso (por outro lado talvez seja redundância dizer isso de um funcionário publico). Cagou tudo. E acabou prejudicando uma licitação importantíssima da qual Claudia era a encarregada. Fato é que ambos tiveram que sentar e conversar tentando arranjar uma solução que não ferisse a população (como se a licitação em questão em si não fosse uma atrocidade para com os contribuintes).
Nossos heróis estavam numa sala pequena, sem janelas, cinza, com esses moveis brancos de escritório (de qualidade inferior diga-se de passagem, certamente algum figurão lucrou com a licitação dos moveis). Dada a importância da situação Claudio não ficou nervoso como ficaria numa conversa com alguém do sexo oposto. Ainda mais um ser gotoso do sexo oposto. Conversaram, ele logo assumiu a culpa e ficaram imaginando uma solução, pra que aquele egoísmo não destrua a licitaçãoooooo********. Durante o papo conheceram-se um pouco, e riram em alguns momentos, Claudia gostou do jeito como Claudio levava a vida, que definiu posteriormente como 'meio away'. E ele gostou de toda a preocupação que ela tinha pelo trabalho, lembrava-o dele mesmo quando tinha entrado no serviço. Em determinado momento Claudio notou que ela estava sempre sorrindo e tocando o cabelo, foi a brecha para o velho Cláudio de Guerra entrar em ação e ask her out (o narrador esta dado a estrangeirismos hoje). Ela que estava meio cansada de haging out********* com o mesmo estereótipo decidiu aceitar.
Fato é que eles saíram depois do trabalho para um café. Como narrador imparcial que sou eu vós digo, caros leitores, que eles combinavam. De uma licitação que só podia dar merda sairá*********** um relacionamento de longa-duração (que pode ser visto como uma 'cagada substancial' ou uma salvação para duas vidas medíocres).
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* Aquele que obra, do verbo obrar. NA.
**Como qualquer homem em sã consciência faria. nota universal.
*** Quando digo pijama sexy imagino uma lingerie preta. NA.
****Nota-se um descuido do autor e/ou do narrador, afinal ele falou que o pijama era sexy não a garota, talvez na cabeça dele isto tenha ficado subentendido. NE.
***** Aparentemente pêlo e pélo (do verbo pelar) perderam os acentos com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, assim sendo distingue-se apenas pelo contexto. NT.
****** very healthy - pseudônimo de Vera Rolf - ex campeã olímpica em salto com vara modalidade vegetariana. NT.
******* Outro descuido do autor ao supor que toda mulher bonita e que dispende muito tempo cuidando da sua beleza tende a não ser uma pessoa de verdade, aqui teríamos que discutir a concepção de pessoa e questões metafísicas. Consideremos (por motivos de saco cheio) que o autor errou. NE.
******** Ver música "Será" da banda Legião Urbana. NA.
********* ask her out - convidá-la para sair (no contexto). haging out - eufemismo para 'dar'. NT.
********** Nota-se que ao longo do texto o autor/narrador comete diversos 'erros' em relação ao tempo verbal, perde-se a sequencia lógica ao confundir o pretérito perfeito com o imperfeito e até com o presente, por isso ate hoje ele não escreveu nenhum livro. Por hora deixemos tudo no passado. NE.
************ É bom que vocês leiam estes asteriscos todos, porque me deu muito trabalho coloca-los em ordem e boa parte das piadas ( O LÚDICO) do texto esta aqui, módafôcas! NA.
domingo, 1 de maio de 2011
Café da Manhã

O despertador do celular tocou as dez para as oito. Era um bom horário, não muito cedo. Ele se sentou na cama, desligou o alarme, e virou para o lado, deu um beijo na testa dela e tentou acorda-la, mesmo sabendo que ela não levantaria até ele levar o café. Mesmo assim ele gostava de beija-la e olhar pra ela antes dela acordar. Levantou-se devagar e esfregou os olhos enquanto ia ao banheiro. Foi a cozinha e começou a preparar o café, pôs agua para ferver, colocou o pó no coador e começou a preparar as torradas. Enquanto a agua fervia ele foi se trocar. Aproveitou para olha-la dormindo novamente, ela era engraçada, ele deu um sorriso com o canto da boca, estava se sentindo bem.
A agua ferveu, ele passou o café, preparou as torradas, uma com manteiga e uma com geleia para cada um, preparou o café dela na xicara lilás, pouco leite e pouco açúcar, e levou o café para o quarto. Dessa vez ela despertou, alias com um sorriso encantador, ela agradeceu deu um jeito que ele não se importaria em ter que fazer aquilo a vida toda. Ela pegou a xicara com as duas mãos, e ele adorava o jeito que ela fazia isso! Tomaram café juntos, sentados na cama, conversando pouco, mas rindo bastante, estavam felizes.
Ela se levantou e quis tomar um banho rápido, já estavam atrasados. Ele guardou as coisas na cozinha, e olhou pela janela enquanto esperava, dia cinzento, mas pelo menos não estava frio. Depois disso ele foi ao banheiro e ficou olhando para ela enquanto ela secava o cabelo, ela fazia caretas pelo espelho e ele entrou no jogo. Riram mais um pouco. Ela terminou a maquiagem, pouca coisa, e ele gostava do seu jeito de se maquiar, não precisava de muito pra ficar bonita, alias, não precisava de nada.
Estavam prontos, hora de ir. Agora ele estava com um nó na garganta, e ela sabia. Abraçaram-se demoradamente. Os cabelos dela eram longos e ainda estavam molhados embaixo, ele adorava isso, sentia seus braços irem molhando vagarosamente. Quando o abraço parecia estar se acabando ambos apertaram mais forte e ficaram ali sentindo um ao outro.
Afastaram-se e ficaram apenas de mãos dadas e se olhando por um tempo, em seguida ela foi andando, meu Deus como ele adorava o jeito que ela andava! Ele a observou por um bom tempo, ela olhou pra trás e sorriu, sorriso lindo aquele!
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Salsicha enlatada
Tudo muito corriqueiro não fosse o detalhe de serem norte-americanos.
Fala aqui, convida ali, cobra um favorzinho de lá, e puft: os americanos visitariam a nossa universidade. Mais especificamente, a nossa turma de Língua Inglesa é que seria a agraciada.
Tudo didaticamente orientado, claro, pela professora; seria uma aula interativa para que treinássemos conversação com os nativos e coisa e tal.
O primeiro nó veio aí: nativos. Até hoje só ouvi essa palavra com um velado tom pejorativo. Os índios brasileiros são nativos, alguma cultura tribal africana é feita por nativos, aqueles povos sem-fim da Melanésia são nativos .
Mas os yankees, eles, logo eles, são em algum ponto nativos? Enfim, o primeiro de outros nós antropológicos.
O segundo nó, não meu, veio com a fantasia em cima de nossos vizinhos distantes. As garotas suspiraram em imaginações que iam longe. Devaneios sobre a harmonia e beleza nórdica.
Seriam do tipo Zac Efron para os moderninhos, ou à la George Clooney para os clássicos – para redimir eventuais suspeitas sobre minhas preferências, cito que precisei pesquisar como se escreve Zac Efron já que não fazia parte do meu universo simbólico-cognitivo.
Quando os americanos chegaram, as garotas notaram, desapontadas, que são gente como a gente. Não fosse o idioma, passariam despercebidos na fila do supermercado.
Mas o terceiro nó, o grande, dado notavelmente em mim, foi durante a dita conversação com o nativo. A dinâmica era em pequenos grupos; um americano por grupo, fazendo perguntas diretas para os alunos. Em inglês, obviamente.
Lá pelas tantas, ele me pergunta meu estilo musical preferido. Eu, tirando da ponta da língua, digo cheio de mim que adoro o rock dos anos 60. O nativo norte-americano exclamou animado – Oh, yeah! – e disse adorar também o rock dos anos 60.
Em segundos veio o clique. E fiquei deprimido. Céus, como sou colonizado! Quando falei do rock dos anos 60, a comunicação teve completo sucesso sem que eu precisasse dizer qual era o rock da década de 60. Estava dado que só existia um, e o yankee entendeu ser o seu rock dos anos 60.
Foi, de fato, como se só existisse um rock-dos-anos-60: o estadunidense. Pior: na minha cabeça uma potencial distinção nem sequer chegou a insinuar-se. Na minha cabeça, quando disse o que disse, o rock anos 60 era um só, e em completa sintonia com a cabeça do norte-americano. Sinonímia de aculturado.
O fato de eu ser brasileiro, e cá ter tido um rock na década de 60, passou longe de ter qualquer relevância quando eu disse gostar do rock anos 60.
Não sou do tipo purista que propala neuróticas acusações contra as misturas e influências culturais, porém, fiquei com um incômodo eco.
Colonizado, dito bem baixinho, suave, mas grafado em itálico, repetido na consciência.
Ou, como diria minha professora de Português: "Não se iluda! Você é uma salsicha enlatada!"
O sentido da frase é confuso, polissêmico, cheio da verve marxista da dita professora, mas sinto que deve aplicar-se a esse caso.
quarta-feira, 30 de março de 2011
A Internet, O Ser Humano e o Copo de Leite
Um dia desses (alias noite) estava no computador de madrugada, olhando sites de relacionamento e fazendo algumas reflexões sobre isso. Fantástico não? O novo vício é passar horas diante de um computador conhecendo pessoas que você não conhece, e mesmo assim, as vezes conhece melhor do que as pessoas com quem você mora. Pensei na evolução da comunicação, como isto afetas relacionamentos e tudo mais. Pois bem, já era tarde, a casa em silêncio, resolvi desligar o computador e tomar um copo de leite antes de dormir (atire a primeira pedra quem não tem este costume). Enquanto desligava o computador e saia do quarto reparei em quão forte brilham as luzes do computador, essas que informam que ele esta ligado ou que o num lock e caps lock estão ligados. Surpreendi-me, é realmente uma luz muito forte. E aí começaram os questionamentos existenciais: ”Uau, como o homem foi capaz de inventar isso? E o computador? Como aparecem imagens num monitor, as vezes mais bem definidas que a própria vida real (é que estou com um monitor novo bem bacana)?"
Com algum esforço mental alcancei a cozinha, como sempre a caixa de leite estava vazia na geladeira, amaldiçoei a caixa, a geladeira e tudo mais, e fui pegar outra caixa na dispensa. Se tem uma coisa que pode te fazer pirar com raciocínios inconsistentes de madrugada é uma caixa dessas de leite UHT pasteurizado! Realmente, quem teve a ideia de tratar o leite desta forma e fazer uma caixa dessas é um gênio, ou um capitalista aproveitador das superstições humanas quanto a sujeira de fazendas e coisa e tal. Peguei uma tesoura para abrir o leite, ah a tesoura! Que instrumento incrível! Se não me falha a memória das poucas e ótimas aulas de arqueologia que tive no curso de ciências sociais (nem a consulta a Wikipédia), o metal começou a ser trabalhado e utilizado a cerca de 7000 mil anos atrás, e revolucionou o mundo (de outro modo como abririam caixas de leite?). Posterior a chamada idade da pedra, e anterior a invenção da escrita, a idade do metal consolidou o péssimo hábito sedentário dos homens, e assim a agricultura evoluiu, as cidades evoluíram e os homens continuaram se matando.

Peguei o copo, e mais um momento de reflexão, coisa fantástica o vidro não! Dizem que é só esquentar a areia que vira vidro, fato é que se eu fosse abandonado numa floresta (o que provavelmente vai acontecer se eu não parar de escrever textos como esse) eu jamais conseguiria forjar um copo de vidro, nem um pedaço de metal pra virar uma tesoura, muito menos um plástico ou um led de computador.
De qualquer forma coloquei o leite semi-desnatado (boiolice, eu sei) no copo e bebi-o. Muito bom, enquanto bebia me ocorreu a ironia: ser humano ultra moderno, mexendo num computador, trajando roupas específicas para o ato de dormir, utilizando os mais mirabolantes aparatos que a humanidade descobriu, enfim, fazendo de tudo para se diferenciar de um animal bebendo o leite (o alimento mais elementar) de uma vaca! Um distante parente bovino!
Resumindo: Utilizando a internet, invenção mor da humanidade, utilizando todo o conforto disponível, utilizando pijama xadrez, mesmo assim a verdade é uma só: somos todos animais! Não somos melhores nem que as vacas, afinal, destruímos florestas e florestas, e assim destruímos o próprio mundo, para criar pasto (e ainda tem uns infelizes que vão para o interior e pensam “Ah a natureza!”). Destruímos nosso planeta para dar abrigo as vacas, nos iludindo achando que estamos no controle por no fim poder beber do seu leite! Fato é que os bezerrinhos também bebem leite e não pagam nada!
O que surpreende ainda mais é que com tudo que o ser humano conseguiu manipular a partir da natureza, a humanidade não vai nada bem! Você leitor pode até estar bem lendo em seu PC enquanto outra janela está aberta com seus sites de relacionamento, mas uma grande parcela da população sente fome. Acho que isso é meio inconcebível para nós, passar fome de verdade. Outra parte está envolvida em guerras, gente morrendo por causa de petróleo, religião, territórios e tudo mais. E toda a riqueza do mundo acaba mal distribuída (sim, usando um marxismo barato, afinal já era de madrugada).
E tudo isso porque eu quis um copo de leite! Ainda bem que não comi bolacha aquela noite!
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Lugar de gente feliz
Hoje fui a um minimercado comprar algumas coisinhas.Parêntese: esse minimercado está longe de ser o armazém de bairro de outrora e muito longe de ser uma grande rede de supermercados, como o Pão de Açúcar. E há uma regra diferente que rege os mercados nesse mundo pós-moderno. Antes era: normalmente cresce, raramente quebra. Agora é: raramente é comprado por um maior, normalmente quebra.
Engraçado. O Pão de Açúcar só quebraria no século XVI, quando era feito pra isso: moída a cana, colocava-se o caldo dentro de uma forma de barro com esse nome. Que sorte: o pão de açúcar descansava por 45 dias, diferentemente dos escravos. Depoimento do padre jesuíta Fernão Cardim, naquele século:
Cada engenho é uma máquina e fábrica incrível. Em cada um, de ordinário há seis, oito ou mais brancos e, ao menos, 60 escravos, que se requerem para o serviço. Os trapiches,engenhos que moem a cana com bois, requerem 60 bois, os quais moem de doze em doze, revezados: começa-se de ordinário a tarefa à meia noite e acaba-se no dia seguinte às três ou quatro horas depois do meio dia. Em cada tarefa se deita 60 a 70 formas de açúcar branco e mascavo. Cada forma tem mais de meia arroba. Os serventes andam correndo, e por isso morrem muitos escravos.
Ao que interessa: comprei feijão, alface, beterraba, couve, refri, tomate, cheiro-verde e pão. O que interessa nesse momento é o pão. Aliás, o pão já interessava faz tempo.
Pedi:
- Moça, quer me ver seis pães?
Muito doce, respondeu:
- Querer ver, não quero.
Gentil, continuei:
- Então me sirva sem ver!
Não soou nada gentil. Ela dissimulou, mas não gostou. Nem eu gostaria, creio. Piada sem sal, né?
O conceito de servidão ainda parece ser um completo tabu para o senso comum. Em nossa sociedade, ele se encaixa entre dois discursos distantes (idealmente) e próximos (historicamente), paradoxalmente: o discurso religioso e o discurso escravocrata. O discurso religioso lamentavelmente não costuma sair das casas de Cristo. Logo, o que resta para a sociedade secular é o secular conceito de servir como algo pejorativo, humilhante.
A moça abaixou a cabeça. Não me olhou mais nos olhos. Tudo o que vi foi uma toca de proteção e um avental, feitos de um algodão maranhense grosseiro, atrás de um tabuleiro repleto de pães de açúcar.
Dúvida de mercado: não quebra porque é comprado ou é comprado porque não quebra?
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A bolha e o visco
E o mais próximo que cheguei de uma conclusão, com certa ironia, foi de que todo hétero conta, lá no fundo, receber uma cantada dos homos. Não apenas uma cantada; dão como evidente que se o outro é homo, ele certamente, necessariamente, e inevitavelmente, irá cair matando com indiretas, olhares e xavecos em cima de todo hétero.
E o perverso da história é que quem cai matando, agora literalmente, são alguns héteros, com lâmpadas e pontapés.
Mais: se o homo eventualmente deixar claro que não tem interesse nenhum, o hétero vai ficar algum tanto ressentido pela expectativa frustrada!
Generalizações são complicadas, como sempre, mas creio que isso tem certa validade genérica.
Parece ser algo ensinado – escola? família? -, não sei. Mas o teste para tirar a prova é simples. Pergunte a um homem hétero o que ele acha de ter amigos gays. 'Ah, nada contra, desde que não venha com viadagem pro meu lado!'. Bingo. É um pressuposto que, sendo você hétero, e sendo o outro homo, potencial
mente, quase naturalmente, ele vai 'ir de viadagem' para seu lado.
Nós héteros, com maior ou menor vergonha, já demos essa resposta um dia.
Vaidade masculina ou uma paranoia institucionalizada?
Lendo sobre o tal ataque aos jovens na Avenida Paulista percebi que podemos até nos revoltar. Aliás, a indignação nessas horas deve vir. Porém, não dá para dizer coisas do tipo nossa, que estranho isso acontecer. Ou então defender a tese de que é inexplicável esse tipo de violência, quase caída dum céu nebuloso.
É algo excessivamente comum, previsível e explicável.
Não tanto pelos motivos – que por serem culturais não são menos fugidios -, mas sim pelos sintomas. Eles se manifestam no dia a dia, sutis ou não. Bomba relógio prestes a explodir. E parece que a lógica dessa violência tem a ver com uma ideia de pureza particularmente desenvolvida na cabeça de alguns homens.
Sim, pois o que alguns héteros cultivam, ainda, é um ideal de pureza. Ele é do tipo de uma bolha de ar num raio de alguns metros em torno desse homem, e a pureza neste espaço tem de ser mantida. Caso não seja, tem-se um problema.
Trata-se de uma pureza heterossexual. O límpido e translúcido é formado por tudo aquilo que representa, ou contém, a dobradinha homem + mulher. É o puro. Mas tudo que igualmente possa representar ou conter a dobradinha homem + homem é simplesmente sujo, repugnante. Talvez viscoso.
E digo viscoso não a toa. É um termo completo neste caso. Simboliza o que é incerto, fluido, pegajoso, aquilo que uma vez que se entre em contato com, não se sabe se esse contato será interrompido. 
E se o treco grudar de vez?
Acho ser uma boa metáfora para explicar a desconfiança violenta de alguns héteros contra os homos. Que nada viscoso ultrapasse a barreira de segurança...
Meu professor faria graça e diria, sei não, tem cheiro de desejo mal resolvido.
Se tem, não sei. Só sei que poucas são as violências que se justificam. E a do tipo homofóbica certamente não é uma delas.
Se os rótulos em si já tem um quê de estúpidos, agredir por conta deles é o que?
sábado, 13 de novembro de 2010
As Ciências Sociais ( me formei \0/ ... e agora? o_0 )




