segunda-feira, 15 de junho de 2015

A vida e o melão

Olho para a lista, e depois de cebolas tem melão.

E eu escolhia um melão quando tive a grande sacada da semana. Semana não, do mês mesmo – e se nada melhor vier daqui em diante, do ano. A coisa piscou em grandes letras dentro da minha testa: viver é como tentar escolher um melão maduro. 

E no duro, é isso mesmo.

A gente pega aquele troço que fica rolando nas mãos e você tem que tomar cuidado pra não deixar cair e ferrar tudo. E você quer um melão bom, daqueles suculentos e docinhos, que quando cortados inundam a cozinha com um cheiro fresco. Mas, caramba, como é que você escolhe a porcaria dum melão bom? Não dá pra sacar assim, de cara, não mesmo.

E a gente até tenta. Aperta aqui, bate ali. Gira bem para ver todos os lados; não tem manchas, nem batidas, nem buracos... e ainda assim não dá pra ter ideia se por dentro o negócio tá bom ou não. E você fica lá, igual paspalho, com aquele melão na mão, com cara de quem não tem a mínima ideia do que tá fazendo.

Mas aí que tá o segredo da coisa e que pouca gente ensina (esses sacanas conspiradores!).

Bater, girar, apertar, até dar uma cheiradinha de leve na casca: é tudo um faz de conta cretino pra burro. O lance é você não dar a entender que tá ali perdidinho com aquele treco nas mãos. Ainda mais quando tem gente olhando. E sempre tem gente olhando o paspalho da vez na ingrata tarefa de escolher o melão.


No auge do desespero, quando se percebe que daquela casca amarela (podia ser verde-escuro, se melão caipira, mas vá lá) a gente não vai tirar informação de nada mesmo, surge a ideia. Ideia besta, mas na hora parece super lógica. 

- Oi. Viu, me ajuda aqui? Sabe como escolher um melão maduro?

E aí a cretinice vai a mil. Depende da pessoa, mas geralmente vai a mil, porque quase ninguém admite que tá tão perdido quanto você. E vão bater, girar, apertar, dar uma cheiradinha, e em tudo fazendo cara de um entendimento profundo. Verdadeiros frutólogos.

- Pega esse daqui ó, esse tá bom. 

Só porque sabem que quando você abrir o melão e se decepcionar com aquela coisa insossa e rígida, que te faz pensar num isopor orgânico, vão estar longe de qualquer culpa, inalcançáveis para qualquer tipo de responsabilidade.

As tias velhinhas são as piores. Meteram na cabeça que seria uma vergonha sem-fim admitir que não sabem escolher um melão (isso é sério, jamais confie nas tias velhinhas).

E o duro é que tem melões que são ruins por safra mesmo, nem tem muito o que escolher. Outros, é o mercado que fode com tudo – o mercado não cuida lá muito bem dos melões nem de nada – e aí é escolher o menos pior e se contentar.

Mas o triste mesmo é que tem gente que nunca escolheu melão algum. Se bobear, nem sabe do melão.

Aí alguém interrompeu minha grande sacada. Acho que já eu tava ali há um bom tempo com aquele melão em mãos e passava a impressão de um frutólogo experiente, do tipo que dá entrevista na Globo e tudo.

- Oi, moço. Hein, sabe me dizer qual melão tá bom?

Olho para a pessoa. Sinto uma força incrível em mim, que começa em desespero e termina com farsa. Respiro fundo, só pra já ir alimentando as palavras, mas sinto o ego pegando umas beiradas. Empunho outra dessas bolas amarelas com tanto sabor em potencial – ou não. Bato aqui, giro lá, aperto mais pra frente, aproximo do nariz. Assumo ar profundamente filosófico, mais frutólogo do que nunca fui.

- Esse daqui tá maduro, pode pegar. 

(Baseado em uma história real, menos a parte das tias velhinhas; elas são as pessoas mais adoráveis que podemos encontrar num mercado e pedir informações sobre frutas e verduras). 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O Dia Mundial dos Introvertidos

No dia 2 de janeiro de 2011 foi comemorado, pela primeira vez, o Dia Mundial dos Introvertidos. Uma iniciativa bacana e que vale a pena passar para a frente. 

Mesmo que na agenda política, social e ecológica possam existir questões muito mais urgentes, é sempre bom aproveitar toda e qualquer possibilidade para sairmos da casinha de nossas cabeças e tentar ver o mundo pelos olhos do outro - inclusive quando esse outro é uma pessoa introvertida que está mais ou menos tragicamente perdida em um mundo feito para extrovertidos. 

Introversão é diferente de timidez (não obstante a reação intransigente das pessoas que cercam o introvertido possam colaborar para desenvolver um quadro de timidez ou mesmo outros problemas mais sérios, como a depressão). De acordo com o dicionário, e referenciando Carl Jung, introversão é "orientação predominante da energia psíquica para o interior do próprio sujeito". 

Ou, traduzindo em miúdos, alguém que fica ruminando as ideias, observando o mundo a sua volta e cultivando o silêncio, mas faz isso com uma intensidade um pouco acima da média.

Mas e por que é que é importante um dia dos introvertidos? Qual a validade de uma data para pensar na introversão? Para aqueles que nasceram do lado de lá desse rio chamado 'vida social' (ah, seus extrovertidos faladores e socializadores!), aqui ficam algumas razões.  

Sim, o mundo é feito (também) por introvertidos!


Porque ser quieto e apreciar a solitude (que é a solidão gostosa, produtiva e voluntária) não deve transformar ninguém em esquisitão ou doente. 

Porque preferir a tranquilidade e o silêncio ao invés da muvuca e do falatório não deve significar que esse alguém é antissocial, antipático, ou que detesta as pessoas - geralmente nós, introvertidos, como qualquer outra pessoa, só detestamos aquelas pessoas que já são detestáveis.

Porque ter dificuldades e resistências a festas, confraternizações e outras situações sociais em que reina a conversa mole e fiada não deve ser motivo para esse alguém ter de ouvir 'por que você é tão quieto?', 'você deveria falar mais!', 'não seja tão sério!', 'se solte!', ou, o pior de todos, 'saia do seu casco!' - não temos casco, mas se tivéssemos consideraríamos seriamente permanecer dentro dele se isto significasse sermos poupados deste tipo de comentário-cobrança.

E, aliás, porque não gostar de, ou não conseguir ter, conversas moles (especialmente com quem não conhecemos direito) não significa não gostar de, ou não conseguir, conversar.  

Porque assim como tem pessoas que necessitam absurdamente estar no meio de outras pessoas e fazendo coisas com outras pessoas (juro que não entendo como as pessoas sacrificam de boa vontade seus finais de semana em eventos coletivos e barulhentos, mas ok, aceito isso), há quem precise urgentemente, de tempo em tempo, meter as caras num livro, filme, jogos ou qualquer outra coisa que possa ser feita sozinho (e se você não entende isso, não custa aceitar, certo?).

E finalmente, porque pessoas introvertidas não são menos por serem introvertidas - que o diga Einstein, Darwin, Nietzsche, Bill Gates e tantos outros nomes de nossa História, inclusive atores e políticos.

Hoje, Dia Mundial dos Introvertidos, caso não seja um deles, faça apenas um pequeno exercício: antes de rotular de arrogância, grosseria ou antipatia o silêncio de alguém, pense que esse alguém pode ser um introvertido curtindo um maluco e intenso mundo interior de ideias e observações. E dica bônus: se você tiver paciência e empatia, pode até ser convidado a conhecer, num relato de primeira mão, esse maluco e intenso mundo interior. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Médicos e Gnomos (ou 'Geneticmente Psicossomático)


         De casa para a padaria, da padaria para o trabalho, do trabalho para o restaurante e de volta para o trabalho, às vezes do trabalho pro happy hour, mas na maioria dos dias do trabalho pra casa. Sempre de carro, é claro. Essa foi a rotina de Edmilson durante alguns anos antes de ele perceber que havia perdido a capacidade de andar.  Quando  uma reunião emergencial de domingo de manhã havia sido cancelada e ele resolveu dar uma volta no parque que ficava ao lado do mega complexo  predial da sua empresa, tentou andar mas não conseguiu. Não sentia dor e não viu nada de errado com as pernas, era como se fosse um daqueles sonhos em que tentamos correr mas não conseguimos.

              A partir daí (e não me pergunte como foi que ele conseguiu sair do parque) sua vida entrou em dias tenebrosos, foi um correria de médicos fazendo exames e não encontrando nada.  Obviamente indicavam outros especialistas que sugeriam tratamentos experimentais caríssimos com remédios de laboratórios famosos sem garantir melhora.  Edmilson já havia perdido a esperança, mas sendo um homem metódico resolveu se consultar com o último médico da lista do plano de saúde (era o mais barato).

        Chegou a um consultório em um prédio marrom com um ar opressor num canto afastado da cidade. Foi recepcionado pela secretária que aparentemente estava lá desde os anos 70 sem voltar para casa. Enquanto aguardava leu a revista seleções mais recente que encontrou, 1986. Seu estado de espírito estava com uma impressão tão ruim do lugar que quando foi chamado pensou em desistir da consulta, mas quando lembrou do esforço que teve para chegar lá pela escada achou uma nova opinião não faria mal.

             O ‘doutor’ era um homem pequeno, com uma  aparência diferente que dificultava supor qual era sua idade, tinha olhos atentos com um quê de malícia que o conferiam um ar de sagacidade. Ele encarou longamente os olhos de Edmilson enquanto ele se aproximava da mesa.

         A consulta estava ocorrendo normalmente, com Edmilson apresentando sua pasta de exames e o médico fazendo-lhe as perguntas de praxe. Encucado com a magnitude do problema o doutor coçou a rala barba enquanto suspirava analisando uma série de exames inconclusivos, então falou:

- Ineficaz por ineficaz sugiro que façamos um mapa astral, também tenho algumas perguntas sobre seus pais, pode deitar neste divã por favor – disse apontando o divã verde acinzentado e empoeirado. Edmilson assustou-se com o sincretismo investigativo, mas o doutor foi tão incisivo e obstinado que ele atendeu prontamente.

Após cerca de três horas de conversa e muito choro das duas partes, os dois sentiam-se como velhos amigos, o médico pediu permissão para ser franco e disse-lhe:

- Sinceramente querido, seu problema é grave, mas parece ser de uma origem “geneticamente psicossomática” – ilustrou as aspas com os dedos, - eu conheço uma “pessoa” – novamente, - que pode te ajudar, mas tenho que te avisar que existe muito preconceito com o tipo de tratamento que ele oferece.
- A esta altura eu não me importo – respondeu Edmilson.

- Pois bem, ele é um gnomo, aqui esta o cartão com o telefone, endereço e a batida secreta da porta.    – O doutor falou de forma calma e pausada, olhando por cima dos óculos para que Edmilson não duvidasse. De fato sua resposta sequer deixou transparecer as dúvidas que ele sentia:

- Mas o plano de saúde cobre isso? – Perguntou Edmilson pegando o cartão colorido.

         - Certamente, está aqui no escopo do Plano, ao lado de homeopatia, psicologia e acupuntura.

  No dia seguinte, Edmilson foi ao endereço indicado e encontrou uma grande arvore, embaixo de um grande cogumelo, com uma porta. Bateu do modo solicitado na porta e foi prontamente atendido por um simpático gnomo. Beliscou-se e não restando dúvida de que estava acordado aceitou o convite de entrar.

   Uma vez lá dentro a consulta ocorreu de forma normal, as mesmas perguntas e a analise dos mesmo exames, porém quando ele acabou de contar o causo o gnomo disse:

     - Não se preocupe, tenho a solução, – falou dando baforadas no longo charuto e abrindo um sorriso – e vou faze-la agora mesmo.

       Quando Edmilson viu o chá de cogumelos sendo preparado, objetou:

              - Peraí, cogumelo também não!

              - É isso ou o Templo De Salomezão.

              - Ok, charlatanismo também não né – Respondeu Edmilson rindo com o gnomo.

             - Enquanto tomavam o chá e passavam a tarde juntos, Edmilson percebeu que não poder andar já não era mais problema, uma vez que agora ele voava.





sexta-feira, 26 de outubro de 2012


O Monge e o Jornalista (Uma Fábula*)

Há muito tempo atrás no longínquo planalto tibetano um monge decidiu entender a vida e sentou-se em silêncio para isso. Reza a lenda que ele não comeu, bebeu ou falou nada por 38 anos e por isso começou a ficar famoso. Alguns companheiros do monastério afirmaram tê-lo visto flutuando enquanto meditava, o que provava que ele alcançou o perfeito entendimento, o descolamento total entre vida material e espiritual/sentimental/psicológico (dependendo da sua escolha epistemológica). Essas proezas e boatos se espalharam por todo o sul e centro asiático, e sendo Hong Kong a cidade globalizada que é, logo noticiários do mundo todo falavam sobre o tal monge.

Obviamente o Ocidente não poderia descansar enquanto não conseguisse uma entrevista que sintetizasse de forma rasa a trajetória do monge e leva-lo para programas de auditório, afinal ele era o novo grande fenômeno mundial, era um viral, explodira com vídeos onde ele flutuava na internet. O problema é que a política da região do Tibete é complicada, era impossível saber se as negociações deviam ser feitas com a China ou com o Governo do Tibete no Exílio e fato é que ninguém conseguiu se aproximar do monge. Até cerca de um mês atrás.

No dia em questão o mundo acordou com uma notícia bombástica: O monge que voa descobriu o sentido da vida e quer revela-lo para o mundo. A partir daí os diferentes veículos de comunicação entraram em guerra para descobrir quem faria a entrevista que mudaria o mundo, foi uma guerra de produtores, agências e governos, e de alguma forma o escolhido para fazê-lo foi um canal de um País da América Latina que aparentemente havia ajudado a consolidar a ditadura militar e tudo de ruim que acontecera  naquele país, mas isso era coisa esquecida. O tal canal tinha um jornalista famoso por fazer entrevistas com famosos, um tal de Zeca alguma coisa. E tudo foi agendado.

O monge quis uma equipe pequena de produção, queria fazer tudo da forma mais intimista possível, e o fez. Falou por pouco mais de duas horas, disse palavras sábias com uma contundência ancestral. O canal fez uma super produção com a entrevista, editou-a e montou um programa exibido mundialmente. O mundo parou ao ver o programa, e o monge também. Só que o monge parou por perplexidade, tudo o que ele havia dito foi distorcido. Não apenas distorcido, quando o monge disse X o jornalista sequer afirmou que ele disse Y, mas -X! Não apenas mal interpretaram suas palavras, como disseram o exato oposto do que ele descobriu em 38 anos de reflexão profunda.

Todos os jornais, noticiários, revistas, e sites idiotas de pseudo-notícias reproduziram o que o jornalista disse que o monge disse, tim-tim por tim-tim. Por mais que o monge tenha ido mais tarde a outras mídias especializadas, e mais intelectualizadas e desmentido a sua entrevista, o grande publico nunca chegou a saber o sentido da vida, porque se uma mentira repetida mil vezes se torna verdade quanto mais uma mentira, gravada, bem editada e reproduzida bilhões de vezes.

O monge ficou desolado, tentou refletir novamente, mas a amargura era demais, então ele flutuou novamente, seus pés saíram do chão, só que dessa vez com uma corda ao redor do pescoço. E o mundo continuou a mesma merda.

*composições literárias onde um ou mais personagens (ou o narrador) são animais.

domingo, 30 de setembro de 2012

Jesus e Adam Smith


A apropriação e transformação que o mundo moderno faz do cristianismo sempre me surpreende. É bem claro que a mensagem de Jesus pretendia ser atemporal e com um caráter que transcendesse a política, os judeus esperavam um messias que os libertassem do julgo dos romanos, Jesus oferecia uma mensagem que pretendia libertar o espírito. Talvez possamos resumir a mensagem de Cristo (como Paulo faz no final do famosíssimo texto de Coríntios 13) em fé, esperança e amor. Simples e objetivo. Mas será que existe uma mensagem que possa existir descolada de um contexto?

Fato é que ao longo da história utilizaram esta mensagem para cometer todo o tipo de atrocidade, não preciso entrar em detalhes. De repente estamos no século XXI onde impera uma ideologia capitalista, democrática e individualista (talvez até egoísta) e novamente a mensagem é reinterpretada. Os mistérios de Deus incompreensíveis aos homens agora são vendidos pela televisão, toda a hierarquia religiosa que Jesus derrubou ao afirmar ser o único caminho para Deus se remodelou e ganhou um caráter profissional e acadêmico e, via de regra, muito bem remunerado.

Em qualquer igreja que se frequente é comum ouvir pessoas afirmando terem esta ou aquela revelação por parte de Deus, em geral para a vida de uma outra pessoa. Antropomorfiza-se Deus e convencem o povo de que quem está lá na frente com um microfone é de fato um mensageiro dEle, principalmente se este profeta tiver o dom da oratória, da retórica. E uma vez que um número de fieis se convence disto vemos o surgimento de alguém com um privilégio de comunicação com Deus e que, portanto, pode dar pitaco na vida dos membros.

A lógica mercadológica capitalista provou-se novamente muito sagaz e apropriou-se do discurso cristão para legitimar o capitalismo e novas práticas religiosas. Claro que, o capitalismo não existe como um ser, mas sim através das pessoas que interiorizam este discurso. E a partir daí não há limites para a transformação da mensagem, a 'benção' virou moeda de troca, que virá para você se você trabalhar bastante, pagar seus impostos, dar o dízimo e ser obediente. Assim você será bem sucedido, afinal o que Jesus disse sobre vencer o mundo poderia ser um vencer NO mundo, principalmente o do trabalho.

Passa-se 8 ou mais horas por dia trabalhando gerando lucro para alguém, 8 ou mais horas dormindo, uma parcela de tempo cuidando do próprio corpo, estudando, e tentado vencer na vida, mas com a certeza de que esta é EXATAMENTE A VONTADE DE DEUS, e que estamos transformando o mundo num lugar melhor.

Aí esta nosso novo cristianismo pequeno burguês, seja ele vestido de um academicismo para as classes alta e média, seja ele com pinceladas de misticismo para as classes baixas, colocando pastores, padres, bispos, apóstolos como um caminho para alcançar a Deus e entender a si mesmo, revestindo-se de um discurso de um outrem para dar vazão a seus sentimentos, sem sequer procurar na Bíblia se o que dizem estar lá escrito realmente está.

Temos então um nova interpretação do cristianismo para cometer um novo tipo de atrocidade, o individualismo. Devemos ser bem sucedidos na vida para poder ajudar nossos irmãos e só eles. Devemos nos afastar do mundo, afinal isto que Jesus fazia de andar com o povo, prostitutas, cobradores de impostos e toda a parte considerada baixa da sociedade da época esta fora de moda. Infelizmente me parece ser mais fácil ser um cristão fora da igreja do que dentro de alguma.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Enigma

Ela incomoda. Vê-la incomoda. Não é lá muito falante - não é do tipo que gera desconforto. A bem da verdade é que, se tem algo que incomoda nela, é o fato de ser quase irrepreensível. A sua discrição é irritante, sem dúvida. Mas por quê?

Ela se veste de forma esquisita, convenhamos. Usa umas roupas de outra década que a faz no mínimo singular. Acho legal quem veste brechó, mas ela abusa. Montada demais. Isso é. Mas isso não é um defeito, por outro lado. Não é um ponto negativo, desses pessoais, dessas coisas que formam a índole de uma pessoa. Ela quer fazer crer que o traje é sempre casual, quando é bastante calculado. Mas e daí? Não justifica o mal estar que ela provoca. Eu no fundo nem a imagino diferente.

Creio que esteja mais no formato do rosto. Ou nas expressões, sabe? Porque quando ela sorri, fica uma covinha um tanto displicente no rosto. Não é feio, ao contrário, mas chama a atenção. As pessoas olham. Eu me sinto um pouco invadido com isso. E eu não sei se ela faz de propósito: se ela apenas ri ou se ela ri para os outros. Porque se for para os outros, ah, se for para os outros então o buraco é mais embaixo. É. Não que ela me deva algo, imagine, mas já pensou? Pros outros? Não se faz.

Eu não sei o que dizer pra ela. Que ela me incomoda. Como assim? Digo: você me incomoda? Não se diz. Pensei em me afastar, mas não é assim que se resolve. Mas resolve não é o termo, porque resolver remete a um problema. Não é um problema. Temos nossas diferenças, acho, e é normal, não é? É um enigma, digamos. Ela é um enigma. Fica assim. Ela é um enigma.

(Fica assim enquanto eu fugir da palavra amor...)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Palhaçada Vintage


                Eu vinha andando por uma importante rua da cidade que conhecia tão bem. Parecia que eu conhecia todos os ladrinhos daquela calçada, estava usando meu casaco favorito,um pouco velho é verdade, mas tinha o bolso no lado de modo que podia colocar as mãos no bolso sem precisar fazer manobras (como fazem alguns desses casacos modernos). Quem conhece aquela cidade bem sabe que ela pode ser bem deprimente as vezes, mas aquele dia era diferente. Havia um clima de empolgação no ar, apesar do vento a temperatura era amena e o céu estava marrom com tons avermelhados ao contrário do cinza habitual. Era uma atmosfera bem apocalíptica (diria até escatológica, caso não precisasse utilizar esta palavra mais tarde com outra conotação), e isto servia para corroborar a impressão surreal que os acontecimentos posteriores confeririam àquele dia, tudo me pareceu um sonho.

                A cidade estava tomada por um clima circense, haja visto que um grande circo internacional havia chegado à cidade para uma longa temporada. Como tudo que é internacional havia muita propaganda, patrocinadores deram um jeito de espalhar palhaços de perna-de-pau pela cidade para divulgar o circo, além disso arlequins e arlequinas, malabaristas e estes 'artistas' que soltam fogo pelas ventas faziam a alegria da criançada, que faziam a tristeza dos pais obrigando-os a comprarem os ingressos com preços abusivos. A cidade parecia estar repleta de bandidos da gangue do Coringa nos jogos de video-game do Batman. Até então tudo bem, apesar de eu não gostar de palhaços estava até admirando aquele clima pós-moderno-retrô-vintage daquele dia, mas tudo que eu queria era chegar ao meu café favorito e tomar uma bela xícara de café forte. Enquanto estava indo uma voz me chamou num canto:

                - Ei rapaz! Vem aqui. - Obviamente achei que seria assaltado, mas bom cristão que sou fui para não demonstrar fazer pré-julgamento de pessoas. Quando me aproximei me assustei pra valer, era um palhaço desses assustadores vestido de azul a la Bozo e com a maquiagem inteira borrada, como uma mulher que chorou com um rímel ''a prova d'água''.       
       
                - Olá! - Respondi tentando esconder minha aflição - tudo bem?

                - Não, não está tudo bem. É tudo culpa deste maldito circo internacional!

                Eu estava com medo, achei que ele talvez fosse usuário de crack, e se tem algo que me assusta mais do que palhaços são usuários de crack. O que dizer de  palhaços que usam crack? Por algum razão continuei a conversa:

                - O que é culpa deles?

                - O fato de eu estar aqui, desempregado, na rua da amargura. -             Olhei na placa o nome da rua, era de fato a Rua da Amargura.

                - Eu posso te ajudar? - Perguntei achando que ele pediria meu dinheiro - O que aconteceu?

                - Bem, - começou ele  que por alguma razão me achou um bom ouvinte e como não falo muito ele estava certo - você conhece o Circo do Salsicha?

                - Claro que conheço - era o circo mais tradicional da cidade, que me deixou com tantos traumas de infância.

                - Pois bem eu trabalhava lá, eu nasci lá! Meus pais eram trapezistas e uma vez minha mãe caiu e meu pai caiu encima e eu fui concebido assim. - Tentei sem sucesso esconder minha cara de espanto, ele continuou - Cresci naquele ambiente e logo me tornei um palhaço, vivemos alguns momentos gloriosos, tirando risadas de crianças utilizando apenas um monociclo e dois guarda-chuvas. De uns anos pra cá o Dom Salsicha, dono do circo, morreu e fomos a derrocada total, as pessoas pararam de vir, pararam de rir, ninguém mais se surpreende com nossos números! Só querem saber das super-produções. Gastam dinheiro pra ver os blockbuster's de Hollywood, os mega-shows internacionais, os circos de além-mar que misturam dança, efeitos especiais, fantasias caríssimas, coreógrafos russos e contorcionistas asiáticos, além de uma equipe de produção e engenheiros multi-disciplinar e multi-etnica.  Ninguém mais quer ver nosso velho elefante, ou globo da morte.

                - Bom, - comecei eu após um tempo de silêncio, tentando medir minhas palavras para achar algo decente para consola-lo - você ainda pode fazer muitas coisas...

                - Como o que? Eu poderia estar matando ou roubando, ou pior fazendo stand-up - graças a Deus ele tinha a noção de como com esse boom do stand-up inúmeros comediantes sem graça ficam fazendo piadas medíocres para um publico medíocre que ri de qualquer referencia escatológica;) ainda bem que ele não era desses. - mas eu ainda tenho minha dignidade!

                Neste exato momento um jovem hipster (ou pseudo-hipster se todos os hipster já não são, por definição, pseudo algo) cruzou a rua com uma lambreta, ou scooter, dessas bem caras que tentam parecer antigas e descoladas. Alias o jovem, obviamente estudante bancado pelos pais (como este que vós fala), vestia-se de modo a parecer retrô, paletó e calças curtas, capacete pela metade amarrado no queixo, mala estilo carteiro e gravata slim. Rapidamente refleti em quão caras eram aquelas roupas e aquela tentativa de ser vintage. E tive uma idéia que mudaria a vida do palhaço e da cidade.

                - Siga-me! - Disse eu ao palhaço,que me olhou assustado mas seguiu. Levei-o ao café e fiz todo um plano de publicidade e marketing para ele, que consistia basicamente em vender o peixe de que o Circo do Salsicha era um circo retro.

                O plano era simples, continuar fazendo os mesmos números, mas vender nos sites e nos jornais fotos com filtros vintages aplicados no instagram, aplicar Patina nos bancos do circo (cada um com uma cor diferente alias) e cobrar um ingresso excessivamente caro, porque nesses nossos dias de pós-modernidade os ''indivíduos'' pagam qualquer preço para se diferenciarem das massas!

                Tempos mais tarde estava eu no mesmo café, dessa vez num dia cinza, e li no jornal local uma reportagem sobre o renascimento e o sucesso do Circo do Salsicha, liderado pelo Palhaço. A noticia louvava o circo como o mais tradicional não apenas da cidade mas da região, e não faltavam elogios a escolha estética vintage do local. Lembrei da conversa com o palhaço como lembrasse de um sonho antigo,um sonho vintage e retrô.           

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Substancialmente

(a leitura em ordem das notas, marcadas pelos asteriscos no texto, é fundamental para a compreensão do mesmo)


Claudio acordou cedo e dirigiu-se instantaneamente ao banheiro. Coçou sua barba que estava por fazer, alias ela sempre estava por fazer e sempre coçava. Ele deu o que gostava de chamar de ''uma cagada substancial'' aquela em que o obreiro* consegue por para fora tudo o que precisa, e melhor, não deixa muitos resquícios, o que torna a limpeza rápida e agradável (ou melhor, o mais perto de agradável que esta tarefa pode ser). Enquanto lavava as mãos ficou se encarando por um tempo no espelho, estava meio fora de forma com a barriga saliente, de samba-canção e uma camiseta cinza e desbotada, pensando na mesma merda de sempre (já que estamos falando disso): "Para onde estou levando minha vida? O que aconteceu com meus sonhos? por que eu não tenho coragem de sair desse emprego medíocre? ah é o emprego..." Estava um pouco atrasado, tinha tempo ou de tomar banho ou de tomar café, não os dois. Priorizou o café** que consistia em café em pão com ovo, seguido de mais café e bolachas.


Do outro lado da cidade Claudia começou seu dia de forma diferente. Acordou muito mais cedo que seu pseudo-homonimo-macho. Foi tomar banho, ela trajava um pijama ajeitadinho, poderíamos inclusive defini-lo como sexy. Ok, era um pijama sexy***. Enquanto tomava banho considerou a temperatura da água, sua disposição naquela manha, o cheiro do sabonete, do shampoo, do condicionador, do creme pré-banho, do creme de banho, do creme pós-banho e todos os acessórios adicionais cujos nomes desconheço e pensou "que banho agradabilíssimo!" Alias, teria pensado caso soubesse usar corretamente o aumentativo de agradável, o que não era o caso, na verdade ela pensou algo do tipo "que banho show!". Sendo uma pessoa extremamente vaidosa como era demorou algum tempo no ritual do banho, fazendo todas as feitiçarias que as mulheres costumam fazer nesse processo, e isso que não era sequer o banho de sábado, estávamos em uma quarta-feira comum. Posteriormente abriu sua necessaire, que do ponto de vista masculino continha tudo o que não é necessário (mas ok, tomemos o ponto de vista de um narrador neutro - como vocês percebem por ter chamado a garota de sexy no começo do parágrafo-****) e tomando um instrumento que não consegui identificar, mas que certamente era da família das pinças, passou a retirar pelos***** de seu corpo (ou rosto) até ficar perfeitamente simétrica, cada pelo tinha seu pelo´ (pelo linha).

Claudia tomou seu café, alias refeição matinal porque não tomava café, pão integral com queijo do tipo cottage light, uma fruta ressecada e um iogurte natural sem gosto. Sentiu-se very healthy******. Maquiou-se (não entrarei nos detalhes para não desperdiçar outro parágrafo da paciência do leitor) e foi ao trabalho.

Não sei se mencionei que Claudio e Claudia trabalhavam no mesmo lugar, uma repartição publica grande. Foram apresentados certa vez no passado e conheciam-se de dar oi e tchau.

A manhã estava agitada para uma quarta-feira. Não o suficiente para estragar o cafezinho que todo funcionário publico toma no horário do expediente para começar o dia. Nossos dois protagonistas se cruzaram no corredor enquanto iam resolver empecilhos burocráticos na papelada em que trabalhavam, trocaram um 'bom dia' e um sorrisinho. Claudia achava que o sorriso de Claudio, aqueles de canto de boca, e seu jeito 'descolado' ou 'descuidado' o conferiam um certo charme. E Claudio, como todos os homens da repartição, achava Claudia gostosa. Mas além disso achava ela uma pessoa intrigante, todo aquele cuidado com a beleza devia esconder uma pessoa de verdade******* por quem, por alguma razão, Claudio se afeiçoava. Por hora é só, cada um foi trabalhar.

Mais tarde, aquela tarde, Claudio fez uma cagada substancial não-literal com seu serviço, nesse ponto o leitor já deve ter notado que ele era um trabalhador relapso (por outro lado talvez seja redundância dizer isso de um funcionário publico). Cagou tudo. E acabou prejudicando uma licitação importantíssima da qual Claudia era a encarregada. Fato é que ambos tiveram que sentar e conversar tentando arranjar uma solução que não ferisse a população (como se a licitação em questão em si não fosse uma atrocidade para com os contribuintes).

Nossos heróis estavam numa sala pequena, sem janelas, cinza, com esses moveis brancos de escritório (de qualidade inferior diga-se de passagem, certamente algum figurão lucrou com a licitação dos moveis). Dada a importância da situação Claudio não ficou nervoso como ficaria numa conversa com alguém do sexo oposto. Ainda mais um ser gotoso do sexo oposto. Conversaram, ele logo assumiu a culpa e ficaram imaginando uma solução, pra que aquele egoísmo não destrua a licitaçãoooooo********. Durante o papo conheceram-se um pouco, e riram em alguns momentos, Claudia gostou do jeito como Claudio levava a vida, que definiu posteriormente como 'meio away'. E ele gostou de toda a preocupação que ela tinha pelo trabalho, lembrava-o dele mesmo quando tinha entrado no serviço. Em determinado momento Claudio notou que ela estava sempre sorrindo e tocando o cabelo, foi a brecha para o velho Cláudio de Guerra entrar em ação e ask her out (o narrador esta dado a estrangeirismos hoje). Ela que estava meio cansada de haging out********* com o mesmo estereótipo decidiu aceitar.

Fato é que eles saíram depois do trabalho para um café. Como narrador imparcial que sou eu vós digo, caros leitores, que eles combinavam. De uma licitação que só podia dar merda sairá*********** um relacionamento de longa-duração (que pode ser visto como uma 'cagada substancial' ou uma salvação para duas vidas medíocres).

-------------------------------------------------------------------------------------------------

* Aquele que obra, do verbo obrar. NA.

**Como qualquer homem em sã consciência faria. nota universal.

*** Quando digo pijama sexy imagino uma lingerie preta. NA.

****Nota-se um descuido do autor e/ou do narrador, afinal ele falou que o pijama era sexy não a garota, talvez na cabeça dele isto tenha ficado subentendido. NE.

***** Aparentemente pêlo e pélo (do verbo pelar) perderam os acentos com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, assim sendo distingue-se apenas pelo contexto. NT.

****** very healthy - pseudônimo de Vera Rolf - ex campeã olímpica em salto com vara modalidade vegetariana. NT.

******* Outro descuido do autor ao supor que toda mulher bonita e que dispende muito tempo cuidando da sua beleza tende a não ser uma pessoa de verdade, aqui teríamos que discutir a concepção de pessoa e questões metafísicas. Consideremos (por motivos de saco cheio) que o autor errou. NE.

******** Ver música "Será" da banda Legião Urbana. NA.

********* ask her out - convidá-la para sair (no contexto). haging out - eufemismo para 'dar'. NT.

********** Nota-se que ao longo do texto o autor/narrador comete diversos 'erros' em relação ao tempo verbal, perde-se a sequencia lógica ao confundir o pretérito perfeito com o imperfeito e até com o presente, por isso ate hoje ele não escreveu nenhum livro. Por hora deixemos tudo no passado. NE.

************ É bom que vocês leiam estes asteriscos todos, porque me deu muito trabalho coloca-los em ordem e boa parte das piadas ( O LÚDICO) do texto esta aqui, módafôcas! NA.

domingo, 1 de maio de 2011

Café da Manhã


O despertador do celular tocou as dez para as oito. Era um bom horário, não muito cedo. Ele se sentou na cama, desligou o alarme, e virou para o lado, deu um beijo na testa dela e tentou acorda-la, mesmo sabendo que ela não levantaria até ele levar o café. Mesmo assim ele gostava de beija-la e olhar pra ela antes dela acordar. Levantou-se devagar e esfregou os olhos enquanto ia ao banheiro. Foi a cozinha e começou a preparar o café, pôs agua para ferver, colocou o pó no coador e começou a preparar as torradas. Enquanto a agua fervia ele foi se trocar. Aproveitou para olha-la dormindo novamente, ela era engraçada, ele deu um sorriso com o canto da boca, estava se sentindo bem.

A agua ferveu, ele passou o café, preparou as torradas, uma com manteiga e uma com geleia para cada um, preparou o café dela na xicara lilás, pouco leite e pouco açúcar, e levou o café para o quarto. Dessa vez ela despertou, alias com um sorriso encantador, ela agradeceu deu um jeito que ele não se importaria em ter que fazer aquilo a vida toda. Ela pegou a xicara com as duas mãos, e ele adorava o jeito que ela fazia isso! Tomaram café juntos, sentados na cama, conversando pouco, mas rindo bastante, estavam felizes.

Ela se levantou e quis tomar um banho rápido, já estavam atrasados. Ele guardou as coisas na cozinha, e olhou pela janela enquanto esperava, dia cinzento, mas pelo menos não estava frio. Depois disso ele foi ao banheiro e ficou olhando para ela enquanto ela secava o cabelo, ela fazia caretas pelo espelho e ele entrou no jogo. Riram mais um pouco. Ela terminou a maquiagem, pouca coisa, e ele gostava do seu jeito de se maquiar, não precisava de muito pra ficar bonita, alias, não precisava de nada.

Estavam prontos, hora de ir. Agora ele estava com um nó na garganta, e ela sabia. Abraçaram-se demoradamente. Os cabelos dela eram longos e ainda estavam molhados embaixo, ele adorava isso, sentia seus braços irem molhando vagarosamente. Quando o abraço parecia estar se acabando ambos apertaram mais forte e ficaram ali sentindo um ao outro.

Afastaram-se e ficaram apenas de mãos dadas e se olhando por um tempo, em seguida ela foi andando, meu Deus como ele adorava o jeito que ela andava! Ele a observou por um bom tempo, ela olhou pra trás e sorriu, sorriso lindo aquele!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Salsicha enlatada

Eles eram um grupo de jovens da Igreja Luterana em viagem pelo Brasil. Na verdade, formavam um coral de música gospel, e por isso estavam na cidade – uma porção de apresentações aqui e ali.

Tudo muito corriqueiro não fosse o detalhe de serem norte-americanos.

Fala aqui, convida ali, cobra um favorzinho de lá, e puft: os americanos visitariam a nossa universidade. Mais especificamente, a nossa turma de Língua Inglesa é que seria a agraciada.

Tudo didaticamente orientado, claro, pela professora; seria uma aula interativa para que treinássemos conversação com os nativos e coisa e tal.

O primeiro nó veio aí: nativos. Até hoje só ouvi essa palavra com um velado tom pejorativo. Os índios brasileiros são nativos, alguma cultura tribal africana é feita por nativos, aqueles povos sem-fim da Melanésia são nativos .

Mas os yankees, eles, logo eles, são em algum ponto nativos? Enfim, o primeiro de outros nós antropológicos.

O segundo nó, não meu, veio com a fantasia em cima de nossos vizinhos distantes. As garotas suspiraram em imaginações que iam longe. Devaneios sobre a harmonia e beleza nórdica.

Seriam do tipo Zac Efron para os moderninhos, ou à la George Clooney para os clássicos – para redimir eventuais suspeitas sobre minhas preferências, cito que precisei pesquisar como se escreve Zac Efron já que não fazia parte do meu universo simbólico-cognitivo.

Quando os americanos chegaram, as garotas notaram, desapontadas, que são gente como a gente. Não fosse o idioma, passariam despercebidos na fila do supermercado.

Mas o terceiro nó, o grande, dado notavelmente em mim, foi durante a dita conversação com o nativo. A dinâmica era em pequenos grupos; um americano por grupo, fazendo perguntas diretas para os alunos. Em inglês, obviamente.

Lá pelas tantas, ele me pergunta meu estilo musical preferido. Eu, tirando da ponta da língua, digo cheio de mim que adoro o rock dos anos 60. O nativo norte-americano exclamou animado – Oh, yeah! – e disse adorar também o rock dos anos 60.

Em segundos veio o clique. E fiquei deprimido. Céus, como sou colonizado! Quando falei do rock dos anos 60, a comunicação teve completo sucesso sem que eu precisasse dizer qual era o rock da década de 60. Estava dado que só existia um, e o yankee entendeu ser o seu rock dos anos 60.

Foi, de fato, como se só existisse um rock-dos-anos-60: o estadunidense. Pior: na minha cabeça uma potencial distinção nem sequer chegou a insinuar-se. Na minha cabeça, quando disse o que disse, o rock anos 60 era um só, e em completa sintonia com a cabeça do norte-americano. Sinonímia de aculturado.

O fato de eu ser brasileiro, e cá ter tido um rock na década de 60, passou longe de ter qualquer relevância quando eu disse gostar do rock anos 60.

Não sou do tipo purista que propala neuróticas acusações contra as misturas e influências culturais, porém, fiquei com um incômodo eco.

Colonizado, dito bem baixinho, suave, mas grafado em itálico, repetido na consciência.

Ou, como diria minha professora de Português: "Não se iluda! Você é uma salsicha enlatada!"

O sentido da frase é confuso, polissêmico, cheio da verve marxista da dita professora, mas sinto que deve aplicar-se a esse caso.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A Internet, O Ser Humano e o Copo de Leite


Um dia desses (alias noite) estava no computador de madrugada, olhando sites de relacionamento e fazendo algumas reflexões sobre isso. Fantástico não? O novo vício é passar horas diante de um computador conhecendo pessoas que você não conhece, e mesmo assim, as vezes conhece melhor do que as pessoas com quem você mora. Pensei na evolução da comunicação, como isto afetas relacionamentos e tudo mais. Pois bem, já era tarde, a casa em silêncio, resolvi desligar o computador e tomar um copo de leite antes de dormir (atire a primeira pedra quem não tem este costume). Enquanto desligava o computador e saia do quarto reparei em quão forte brilham as luzes do computador, essas que informam que ele esta ligado ou que o num lock e caps lock estão ligados. Surpreendi-me, é realmente uma luz muito forte. E aí começaram os questionamentos existenciais: ”Uau, como o homem foi capaz de inventar isso? E o computador? Como aparecem imagens num monitor, as vezes mais bem definidas que a própria vida real (é que estou com um monitor novo bem bacana)?"


Com algum esforço mental alcancei a cozinha, como sempre a caixa de leite estava vazia na geladeira, amaldiçoei a caixa, a geladeira e tudo mais, e fui pegar outra caixa na dispensa. Se tem uma coisa que pode te fazer pirar com raciocínios inconsistentes de madrugada é uma caixa dessas de leite UHT pasteurizado! Realmente, quem teve a ideia de tratar o leite desta forma e fazer uma caixa dessas é um gênio, ou um capitalista aproveitador das superstições humanas quanto a sujeira de fazendas e coisa e tal. Peguei uma tesoura para abrir o leite, ah a tesoura! Que instrumento incrível! Se não me falha a memória das poucas e ótimas aulas de arqueologia que tive no curso de ciências sociais (nem a consulta a Wikipédia), o metal começou a ser trabalhado e utilizado a cerca de 7000 mil anos atrás, e revolucionou o mundo (de outro modo como abririam caixas de leite?). Posterior a chamada idade da pedra, e anterior a invenção da escrita, a idade do metal consolidou o péssimo hábito sedentário dos homens, e assim a agricultura evoluiu, as cidades evoluíram e os homens continuaram se matando.


Peguei o copo, e mais um momento de reflexão, coisa fantástica o vidro não! Dizem que é só esquentar a areia que vira vidro, fato é que se eu fosse abandonado numa floresta (o que provavelmente vai acontecer se eu não parar de escrever textos como esse) eu jamais conseguiria forjar um copo de vidro, nem um pedaço de metal pra virar uma tesoura, muito menos um plástico ou um led de computador.


De qualquer forma coloquei o leite semi-desnatado (boiolice, eu sei) no copo e bebi-o. Muito bom, enquanto bebia me ocorreu a ironia: ser humano ultra moderno, mexendo num computador, trajando roupas específicas para o ato de dormir, utilizando os mais mirabolantes aparatos que a humanidade descobriu, enfim, fazendo de tudo para se diferenciar de um animal bebendo o leite (o alimento mais elementar) de uma vaca! Um distante parente bovino!


Resumindo: Utilizando a internet, invenção mor da humanidade, utilizando todo o conforto disponível, utilizando pijama xadrez, mesmo assim a verdade é uma só: somos todos animais! Não somos melhores nem que as vacas, afinal, destruímos florestas e florestas, e assim destruímos o próprio mundo, para criar pasto (e ainda tem uns infelizes que vão para o interior e pensam “Ah a natureza!”). Destruímos nosso planeta para dar abrigo as vacas, nos iludindo achando que estamos no controle por no fim poder beber do seu leite! Fato é que os bezerrinhos também bebem leite e não pagam nada!


O que surpreende ainda mais é que com tudo que o ser humano conseguiu manipular a partir da natureza, a humanidade não vai nada bem! Você leitor pode até estar bem lendo em seu PC enquanto outra janela está aberta com seus sites de relacionamento, mas uma grande parcela da população sente fome. Acho que isso é meio inconcebível para nós, passar fome de verdade. Outra parte está envolvida em guerras, gente morrendo por causa de petróleo, religião, territórios e tudo mais. E toda a riqueza do mundo acaba mal distribuída (sim, usando um marxismo barato, afinal já era de madrugada).


E tudo isso porque eu quis um copo de leite! Ainda bem que não comi bolacha aquela noite!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lugar de gente feliz

Hoje fui a um minimercado comprar algumas coisinhas.

Parêntese: esse minimercado está longe de ser o armazém de bairro de outrora e muito longe de ser uma grande rede de supermercados, como o Pão de Açúcar. E há uma regra diferente que rege os mercados nesse mundo pós-moderno. Antes era: normalmente cresce, raramente quebra. Agora é: raramente é comprado por um maior, normalmente quebra.

Engraçado. O Pão de Açúcar só quebraria no século XVI, quando era feito pra isso: moída a cana, colocava-se o caldo dentro de uma forma de barro com esse nome. Que sorte: o pão de açúcar descansava por 45 dias, diferentemente dos escravos. Depoimento do padre jesuíta Fernão Cardim, naquele século:

Cada engenho é uma máquina e fábrica incrível. Em cada um, de ordinário há seis, oito ou mais brancos e, ao menos, 60 escravos, que se requerem para o serviço. Os trapiches,engenhos que moem a cana com bois, requerem 60 bois, os quais moem de doze em doze, revezados: começa-se de ordinário a tarefa à meia noite e acaba-se no dia seguinte às três ou quatro horas depois do meio dia. Em cada tarefa se deita 60 a 70 formas de açúcar branco e mascavo. Cada forma tem mais de meia arroba. Os serventes andam correndo, e por isso morrem muitos escravos.

Ao que interessa: comprei feijão, alface, beterraba, couve, refri, tomate, cheiro-verde e pão. O que interessa nesse momento é o pão. Aliás, o pão já interessava faz tempo.

Pedi:

- Moça, quer me ver seis pães?

Muito doce, respondeu:

- Querer ver, não quero.

Gentil, continuei:

- Então me sirva sem ver!

Não soou nada gentil. Ela dissimulou, mas não gostou. Nem eu gostaria, creio. Piada sem sal, né?

O conceito de servidão ainda parece ser um completo tabu para o senso comum. Em nossa sociedade, ele se encaixa entre dois discursos distantes (idealmente) e próximos (historicamente), paradoxalmente: o discurso religioso e o discurso escravocrata. O discurso religioso lamentavelmente não costuma sair das casas de Cristo. Logo, o que resta para a sociedade secular é o secular conceito de servir como algo pejorativo, humilhante.

A moça abaixou a cabeça. Não me olhou mais nos olhos. Tudo o que vi foi uma toca de proteção e um avental, feitos de um algodão maranhense grosseiro, atrás de um tabuleiro repleto de pães de açúcar.

Dúvida de mercado: não quebra porque é comprado ou é comprado porque não quebra?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A bolha e o visco

Quando fiquei sabendo daquele ataque a alguns jovens na Avenida Paulista, algo com prováveis motivações homofóbicas, fiquei pensando na coisa toda, principalmente nessa aversão dos héteros contra os homos.

E o mais próximo que cheguei de uma conclusão, com certa ironia, foi de que todo hétero conta, lá no fundo, receber uma cantada dos homos. Não apenas uma cantada; dão como evidente que se o outro é homo, ele certamente, necessariamente, e inevitavelmente, irá cair matando com indiretas, olhares e xavecos em cima de todo hétero.

E o perverso da história é que quem cai matando, agora literalmente, são alguns héteros, com lâmpadas e pontapés.

Mais: se o homo eventualmente deixar claro que não tem interesse nenhum, o hétero vai ficar algum tanto ressentido pela expectativa frustrada!

Generalizações são complicadas, como sempre, mas creio que isso tem certa validade genérica.

Parece ser algo ensinado – escola? família? -, não sei. Mas o teste para tirar a prova é simples. Pergunte a um homem hétero o que ele acha de ter amigos gays. 'Ah, nada contra, desde que não venha com viadagem pro meu lado!'. Bingo. É um pressuposto que, sendo você hétero, e sendo o outro homo, potencialmente, quase naturalmente, ele vai 'ir de viadagem' para seu lado.

Nós héteros, com maior ou menor vergonha, já demos essa resposta um dia.

Vaidade masculina ou uma paranoia institucionalizada?

Lendo sobre o tal ataque aos jovens na Avenida Paulista percebi que podemos até nos revoltar. Aliás, a indignação nessas horas deve vir. Porém, não dá para dizer coisas do tipo nossa, que estranho isso acontecer. Ou então defender a tese de que é inexplicável esse tipo de violência, quase caída dum céu nebuloso.

É algo excessivamente comum, previsível e explicável.

Não tanto pelos motivos – que por serem culturais não são menos fugidios -, mas sim pelos sintomas. Eles se manifestam no dia a dia, sutis ou não. Bomba relógio prestes a explodir. E parece que a lógica dessa violência tem a ver com uma ideia de pureza particularmente desenvolvida na cabeça de alguns homens.

Sim, pois o que alguns héteros cultivam, ainda, é um ideal de pureza. Ele é do tipo de uma bolha de ar num raio de alguns metros em torno desse homem, e a pureza neste espaço tem de ser mantida. Caso não seja, tem-se um problema.

Trata-se de uma pureza heterossexual. O límpido e translúcido é formado por tudo aquilo que representa, ou contém, a dobradinha homem + mulher. É o puro. Mas tudo que igualmente possa representar ou conter a dobradinha homem + homem é simplesmente sujo, repugnante. Talvez viscoso.

E digo viscoso não a toa. É um termo completo neste caso. Simboliza o que é incerto, fluido, pegajoso, aquilo que uma vez que se entre em contato com, não se sabe se esse contato será interrompido.

E se o treco grudar de vez?

Acho ser uma boa metáfora para explicar a desconfiança violenta de alguns héteros contra os homos. Que nada viscoso ultrapasse a barreira de segurança...

Meu professor faria graça e diria, sei não, tem cheiro de desejo mal resolvido.

Se tem, não sei. Só sei que poucas são as violências que se justificam. E a do tipo homofóbica certamente não é uma delas.

Se os rótulos em si já tem um quê de estúpidos, agredir por conta deles é o que?

sábado, 13 de novembro de 2010

As Ciências Sociais ( me formei \0/ ... e agora? o_0 )



4 anos e meio depois do fatídico rito de passagem do vestibular, eu me formei em ciências sociais! Não, isso não faz de mim um socialista (apesar de assim eu me definir política-ideologicamente) mas sim um cientista social, ou um sociólogo, como queiram. “Que legal, o quê que você faz?” No momento desempregado, e sim, provavelmente em algum momento da vida eu terei que dar aulas, mas agora já estou até gostando da idéia. Pois bem, a idéia deste texto não era falar das coisas práticas da conclusão de um curso de graduação, mas sim de alguns momentos pelos quais passei e coisas que eu senti (afinal isto ainda é um blog).

Em primeiro lugar, não importa o quanto te avisem que é um curso extremamente teórico e que exige muita leitura, você nunca está suficientemente preparado! Chegou em determinados momentos a ter cerca de 200 páginas de leitura por semana, e não era aquela leitura agradável do tipo Fernando Sabino, Arthur Conan Doyle ou Jonathan Swift, mas leituras complexas, e mais, fichamentos, trabalhos, participação em sala (blergh), seminários...A monografia então foi pior, sim foi pior do que todos dizem que é! O pior ainda porque quando eu estava escrevendo-a estava trabalhando, num desses empregos normais de 8 horas por dia e salário de fome no fim do mês, e tinha aula a noite, e monografia de madrugada.

Pois bem, sobrevivemos! Olhando em retrospecto há quem diga (né César) que eu tive mais sorte do que juízo, porque neste jeito manso de ser muitas vezes levei as coisas com a barriga e mesmo assim tirei ótimas notas, das duas uma, ou eu tinha uma grande imaginação sociológica ou boa parte das matérias e professores eram picaretas (prefiro acreditar na segunda opção).

Agora o que realmente nos atormente neste curso, o que nos desmotiva e impede de lutar a boa batalha são a dúvidas existenciais que ele te apresenta, e que você invariavelmente interioriza. Não sei se é possível descrever o que é cansaço mental, mas é algo que, diferente do cansaço físico, não passa após uma boa noite de sono. Alias, muitas vezes perdemos o sono nos debruçando sobre as questões mais variadas, repensando conceitos que tínhamos como certo tentando achar uma solução, definir a teoria mais plausível para acreditar. Afinal o nosso instrumento de trabalho são as palavras, e há autores que usam as mesma palavras para dizer coisas diametralmente opostas e não há como apenas aprender sem definir acreditar em uma ou outra.

Eu gostava de ficar olhando pela janela do nono andar (ou do sexto mesmo) da reitoria, da UFPR ver as pessoas pequenas lá embaixo e ficar conjecturando alguma teoria que fizesse sentido que desse conta de explicar a religião, a ciência, o amor, a paixão, o ódio, a evolução (não me surpreende que as pessoas me considerem tão confuso, dado meuinconstante estado mental). É difícil ser cristão/protestante (evangélico, para alguns) militante e entrar num curso desses, é estranho ter que questionar o tempo inteiro sua fé, suas tradições, seus ritos, e olhá-lo como mais um rito.

Mas nem tudo foi tão nebuloso assim, afinal foi nesse tempo que conheci, pessoas incríveis (certo Carlos, Aline, César, Taute) com que fiz amizade, alias dois deles até toparam fazer um blog comigo e de repente desapareceram dele. Infelizmente, ou felizmente pra eles, apenas o César concluiu o curso também, alias me dando muita força (no sentido da praxis - trabalhos, provas, seminários) pra continuar.

Enfim, é realmente estranho estar formado, a gente fica com uma sensação que não aprendeu nada, mas no fim tenho pra mim que a coisa mais importante que aprendi nesse curso é conferir o mesmo status a todo o tipo de discurso. É muito bom desconstruir a legitimidade da ciência (até mesmo das ciências sociais) como discurso hegemônico capaz de explicar tudo e todos, e perceber que cada pessoa constrói uma visão de mundo única e tão capaz de explicar sua realidade quanto um tratado de milhares de páginas que nunca será aberto. É interessante ser capaz de entender razões econômicas, egoístas que perpassam todo o tipo de acontecimento. E muito mais desafiador é procurar algo que seja feito com alma (mesmo que essa seja uma construção de um discurso moderno ocidental e individualista) no meio de tudo isto.

Por fim durante a colação de grau fizemos o juramento de nos importarmos sempre em nosso trabalho com a questão social, e realmente acredito que nada no mundo faz sentido se não nos importarmos com os outros antes de pensarmos em nós. Afinal a própria Biblia afirma, ironicamente no livro de Tiago (1:27), "Para Deus, o Pai, a religião pura e verdadeira é esta: ajudar os orfãos e as viúvas em suas aflições e não se manchar com as coisas más deste mundo".


Amém...