sábado, 11 de fevereiro de 2012

Substancialmente

(a leitura em ordem das notas, marcadas pelos asteriscos no texto, é fundamental para a compreensão do mesmo)


Claudio acordou cedo e dirigiu-se instantaneamente ao banheiro. Coçou sua barba que estava por fazer, alias ela sempre estava por fazer e sempre coçava. Ele deu o que gostava de chamar de ''uma cagada substancial'' aquela em que o obreiro* consegue por para fora tudo o que precisa, e melhor, não deixa muitos resquícios, o que torna a limpeza rápida e agradável (ou melhor, o mais perto de agradável que esta tarefa pode ser). Enquanto lavava as mãos ficou se encarando por um tempo no espelho, estava meio fora de forma com a barriga saliente, de samba-canção e uma camiseta cinza e desbotada, pensando na mesma merda de sempre (já que estamos falando disso): "Para onde estou levando minha vida? O que aconteceu com meus sonhos? por que eu não tenho coragem de sair desse emprego medíocre? ah é o emprego..." Estava um pouco atrasado, tinha tempo ou de tomar banho ou de tomar café, não os dois. Priorizou o café** que consistia em café em pão com ovo, seguido de mais café e bolachas.


Do outro lado da cidade Claudia começou seu dia de forma diferente. Acordou muito mais cedo que seu pseudo-homonimo-macho. Foi tomar banho, ela trajava um pijama ajeitadinho, poderíamos inclusive defini-lo como sexy. Ok, era um pijama sexy***. Enquanto tomava banho considerou a temperatura da água, sua disposição naquela manha, o cheiro do sabonete, do shampoo, do condicionador, do creme pré-banho, do creme de banho, do creme pós-banho e todos os acessórios adicionais cujos nomes desconheço e pensou "que banho agradabilíssimo!" Alias, teria pensado caso soubesse usar corretamente o aumentativo de agradável, o que não era o caso, na verdade ela pensou algo do tipo "que banho show!". Sendo uma pessoa extremamente vaidosa como era demorou algum tempo no ritual do banho, fazendo todas as feitiçarias que as mulheres costumam fazer nesse processo, e isso que não era sequer o banho de sábado, estávamos em uma quarta-feira comum. Posteriormente abriu sua necessaire, que do ponto de vista masculino continha tudo o que não é necessário (mas ok, tomemos o ponto de vista de um narrador neutro - como vocês percebem por ter chamado a garota de sexy no começo do parágrafo-****) e tomando um instrumento que não consegui identificar, mas que certamente era da família das pinças, passou a retirar pelos***** de seu corpo (ou rosto) até ficar perfeitamente simétrica, cada pelo tinha seu pelo´ (pelo linha).

Claudia tomou seu café, alias refeição matinal porque não tomava café, pão integral com queijo do tipo cottage light, uma fruta ressecada e um iogurte natural sem gosto. Sentiu-se very healthy******. Maquiou-se (não entrarei nos detalhes para não desperdiçar outro parágrafo da paciência do leitor) e foi ao trabalho.

Não sei se mencionei que Claudio e Claudia trabalhavam no mesmo lugar, uma repartição publica grande. Foram apresentados certa vez no passado e conheciam-se de dar oi e tchau.

A manhã estava agitada para uma quarta-feira. Não o suficiente para estragar o cafezinho que todo funcionário publico toma no horário do expediente para começar o dia. Nossos dois protagonistas se cruzaram no corredor enquanto iam resolver empecilhos burocráticos na papelada em que trabalhavam, trocaram um 'bom dia' e um sorrisinho. Claudia achava que o sorriso de Claudio, aqueles de canto de boca, e seu jeito 'descolado' ou 'descuidado' o conferiam um certo charme. E Claudio, como todos os homens da repartição, achava Claudia gostosa. Mas além disso achava ela uma pessoa intrigante, todo aquele cuidado com a beleza devia esconder uma pessoa de verdade******* por quem, por alguma razão, Claudio se afeiçoava. Por hora é só, cada um foi trabalhar.

Mais tarde, aquela tarde, Claudio fez uma cagada substancial não-literal com seu serviço, nesse ponto o leitor já deve ter notado que ele era um trabalhador relapso (por outro lado talvez seja redundância dizer isso de um funcionário publico). Cagou tudo. E acabou prejudicando uma licitação importantíssima da qual Claudia era a encarregada. Fato é que ambos tiveram que sentar e conversar tentando arranjar uma solução que não ferisse a população (como se a licitação em questão em si não fosse uma atrocidade para com os contribuintes).

Nossos heróis estavam numa sala pequena, sem janelas, cinza, com esses moveis brancos de escritório (de qualidade inferior diga-se de passagem, certamente algum figurão lucrou com a licitação dos moveis). Dada a importância da situação Claudio não ficou nervoso como ficaria numa conversa com alguém do sexo oposto. Ainda mais um ser gotoso do sexo oposto. Conversaram, ele logo assumiu a culpa e ficaram imaginando uma solução, pra que aquele egoísmo não destrua a licitaçãoooooo********. Durante o papo conheceram-se um pouco, e riram em alguns momentos, Claudia gostou do jeito como Claudio levava a vida, que definiu posteriormente como 'meio away'. E ele gostou de toda a preocupação que ela tinha pelo trabalho, lembrava-o dele mesmo quando tinha entrado no serviço. Em determinado momento Claudio notou que ela estava sempre sorrindo e tocando o cabelo, foi a brecha para o velho Cláudio de Guerra entrar em ação e ask her out (o narrador esta dado a estrangeirismos hoje). Ela que estava meio cansada de haging out********* com o mesmo estereótipo decidiu aceitar.

Fato é que eles saíram depois do trabalho para um café. Como narrador imparcial que sou eu vós digo, caros leitores, que eles combinavam. De uma licitação que só podia dar merda sairá*********** um relacionamento de longa-duração (que pode ser visto como uma 'cagada substancial' ou uma salvação para duas vidas medíocres).

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* Aquele que obra, do verbo obrar. NA.

**Como qualquer homem em sã consciência faria. nota universal.

*** Quando digo pijama sexy imagino uma lingerie preta. NA.

****Nota-se um descuido do autor e/ou do narrador, afinal ele falou que o pijama era sexy não a garota, talvez na cabeça dele isto tenha ficado subentendido. NE.

***** Aparentemente pêlo e pélo (do verbo pelar) perderam os acentos com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, assim sendo distingue-se apenas pelo contexto. NT.

****** very healthy - pseudônimo de Vera Rolf - ex campeã olímpica em salto com vara modalidade vegetariana. NT.

******* Outro descuido do autor ao supor que toda mulher bonita e que dispende muito tempo cuidando da sua beleza tende a não ser uma pessoa de verdade, aqui teríamos que discutir a concepção de pessoa e questões metafísicas. Consideremos (por motivos de saco cheio) que o autor errou. NE.

******** Ver música "Será" da banda Legião Urbana. NA.

********* ask her out - convidá-la para sair (no contexto). haging out - eufemismo para 'dar'. NT.

********** Nota-se que ao longo do texto o autor/narrador comete diversos 'erros' em relação ao tempo verbal, perde-se a sequencia lógica ao confundir o pretérito perfeito com o imperfeito e até com o presente, por isso ate hoje ele não escreveu nenhum livro. Por hora deixemos tudo no passado. NE.

************ É bom que vocês leiam estes asteriscos todos, porque me deu muito trabalho coloca-los em ordem e boa parte das piadas ( O LÚDICO) do texto esta aqui, módafôcas! NA.

domingo, 1 de maio de 2011

Café da Manhã


O despertador do celular tocou as dez para as oito. Era um bom horário, não muito cedo. Ele se sentou na cama, desligou o alarme, e virou para o lado, deu um beijo na testa dela e tentou acorda-la, mesmo sabendo que ela não levantaria até ele levar o café. Mesmo assim ele gostava de beija-la e olhar pra ela antes dela acordar. Levantou-se devagar e esfregou os olhos enquanto ia ao banheiro. Foi a cozinha e começou a preparar o café, pôs agua para ferver, colocou o pó no coador e começou a preparar as torradas. Enquanto a agua fervia ele foi se trocar. Aproveitou para olha-la dormindo novamente, ela era engraçada, ele deu um sorriso com o canto da boca, estava se sentindo bem.

A agua ferveu, ele passou o café, preparou as torradas, uma com manteiga e uma com geleia para cada um, preparou o café dela na xicara lilás, pouco leite e pouco açúcar, e levou o café para o quarto. Dessa vez ela despertou, alias com um sorriso encantador, ela agradeceu deu um jeito que ele não se importaria em ter que fazer aquilo a vida toda. Ela pegou a xicara com as duas mãos, e ele adorava o jeito que ela fazia isso! Tomaram café juntos, sentados na cama, conversando pouco, mas rindo bastante, estavam felizes.

Ela se levantou e quis tomar um banho rápido, já estavam atrasados. Ele guardou as coisas na cozinha, e olhou pela janela enquanto esperava, dia cinzento, mas pelo menos não estava frio. Depois disso ele foi ao banheiro e ficou olhando para ela enquanto ela secava o cabelo, ela fazia caretas pelo espelho e ele entrou no jogo. Riram mais um pouco. Ela terminou a maquiagem, pouca coisa, e ele gostava do seu jeito de se maquiar, não precisava de muito pra ficar bonita, alias, não precisava de nada.

Estavam prontos, hora de ir. Agora ele estava com um nó na garganta, e ela sabia. Abraçaram-se demoradamente. Os cabelos dela eram longos e ainda estavam molhados embaixo, ele adorava isso, sentia seus braços irem molhando vagarosamente. Quando o abraço parecia estar se acabando ambos apertaram mais forte e ficaram ali sentindo um ao outro.

Afastaram-se e ficaram apenas de mãos dadas e se olhando por um tempo, em seguida ela foi andando, meu Deus como ele adorava o jeito que ela andava! Ele a observou por um bom tempo, ela olhou pra trás e sorriu, sorriso lindo aquele!